O que a mudança me trouxe além das caixas

Quando ainda vivia com a minha mãe, ficava impressionada com a quantidade de coisas que ela era capaz de acumular. E guardar. Muitos dos presentes de casamento estavam há anos guardados em armários esperando a ocasião especial para serem usados. Alguns embrulhados no mesmo papel de seda que devem ter chegado. As ocasiões chegavam, mas certamente muitas vezes ela até se esquecia que tinha guardado aquela travessa, aquele cristal ou aquela prata para colocar na mesa e eles não saíam do armário.

Ela tinha carinho por tudo aquilo, mas o apego era tanto que ela preferia não “gastá-los”. Acho que era assim que ela pensava. Também acumulava caixas, fitas de presentes recebidos, revistas, brinquedos das filhas que já haviam crescido, incluindo uma coleção inteira dos bichinhos de pelúcia da Parmalat (esse é o momento que eu entrego a minha idade) entre muitas coisas.

Tudo estava lá nos armários da sala que tinha seus sofás sempre protegidos por capas.

Quando ela faleceu, há 6 anos, eu e minhas irmãs tivemos que passar pelo duro momento de decidir o que fazer com as suas roupas, sapatos, as poucas jóias, objetos pessoais e também tudo o que havia no apartamento. Foi aí que tivemos a real dimensão da quantidade de “apegos” que ela protegia. Não foi uma tarefa fácil, mas conseguimos. Doamos muitas coisas e dividimos entre nós 3 o que decidimos que ficaria como recordação dela.

Inconscientemente adotei hábitos opostos. Apesar de todo o amor, confesso que me incomodava aquele costume dela. Não guardo, uso. Não acumulo, e até exagero na hora de “passar adiante” tudo aquilo que acho que não uso mais. Não posso dizer que não compro. Mas toda vez que compro eu doo o que aquilo está “substituindo”. Se compro 2 calças e um vestido, separo 3 peças que não uso mais e passo adiante. Sorte da empregada que sempre levou tudo para ela.

Chegamos na Republica Dominicana com 4 malas. A mudança veio toda por mar e chegou depois de um mês da nossa saída do Perú. Não havia trazido nada de casa, apenas roupas, sapatos e alguns brinquedos para as crianças. Ficamos 1 semana em um hotel e 3 semanas no nosso apartamento definitivo com alguns móveis alugados. Nada de supérfluo. Nada de itens que não fossem de primeira necessidade. E sobrevivemos muito bem.

A mudança chegou depois do tempo previsto, com exatas 234 caixas, entre móveis, utensílios de cozinha, itens de decoração e mais roupas e sapatos. Foram necessários vários dias para desencaixotar e colocar tudo em seu devido lugar. Uma trabalheira bem cansativa.

Foi bom ter as nossas coisas aqui e ver o apartamento virar de novo o nosso lar. Veio a sensação de casa, do familiar. Mas veio também aquela lembrança do passado, da minha mãe e de tudo o que ela tinha sem precisar de fato ter. Percebi que apesar da minha mentalidade de não querer acumular, a verdade é que vivemos com muito mais do que precisamos. E acho que falo pela maioria das pessoas que estão lendo esse post.

Se está guardado muito provavelmente você não precisa, caso contrário estaria em uso. Se você não usa há mais de um ano, você não usará mais, passe adiante. Alguém com certeza precisa daquilo e não poderá pagar por isso. E não faz nenhum sentido deixar dentro do armário pelo simples apego e o não querer “gastar”.

Compre menos e use mais. E jamais se esqueça, se não usa, doe. A vida é curta e mudar é sempre bom, seja de endereço, seja de atitude.

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Comentários

  1. A difícil e nobre arte do desapego. Penso nisso todos os dias. O balanço é bom, mas não é simples. As crianças vivem me perguntando se vão reencontrar brinquedos que ficaram em Portugal. Eita exercício que nasce com a gente. Bjs

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