Bipolar?

chuva

Acordei achando a vida grave. De vez em quando é assim. Sem nenhum motivo específico, mas por pequenos motivos acentuados por algumas noites sem dormir direito, tudo fica mais difícil. Nestes dias, todo silêncio é pouco, tudo fica mais intenso, lento, chuvoso. E chuvoso estava o dia, até que lá fora Pak Made, que cuidava do arroz debaixo de chuva, com os pés na lama, ao me ver na sala lançou um sorriso luminoso. Acenou com sua mão suja de trabalhador guerreiro e espiritualizado, e me deixou sem graça, sem sentido, pouco à vontade naquele meu papel de reclamona.

Os meninos brigavam no café da manhã. Dei um grito de basta. Os dois me olharam, fizeram silêncio e continuaram comendo por mais alguns instantes. Poucos instantes, porque Vicente, manhoso e se recuperando de uma gripe, sem conseguir dormir direito e sem nos deixar dormir, começou a gritar: “Tira mamãe, tira daqui.” E eu confusa, cansada, sem entender patavina: “Tira o quê? Calma. Precisa falar desse jeito?” Era mais uma libélula dentro de casa, batendo no vidro, achando que por ali ia conseguir fugir. Elas sempre invadem nosso espaço de vidro e nós direcionamos as coitadas para fora, para fugir dos Geckos (as lagartixas gigantes) que ficam na espreita, loucos para devorar os insetos. Catei um pedaço de papel, abanei em cima da bichinha até que ela achou a porta e saiu voando. Vicente comemorou com palmas.

Saímos para a escola e a chuva tinha dado espaço ao sol. Na saída demos de cara com a flor que só vive um dia. Ela estava linda, aberta, balançando úmida com a brisa fresca. Entramos no carro e o som estava quebrado. Os dois pediram para irem à escola com seus Ukeleles. De casa até lá o caminho é longo, mas a música inventada por eles preencheu o nosso tempo.

Lá chegando percebi que não havia colocado na mochila do Vicente a garrafa d’água. Ele ficou bravo, mas logo conseguimos um copo para colocar sua água. Saí da escola sozinha, fui levar o lixo para reciclar e o resto de comida para a compostagem. Ao sair, chafurdei meu pé na lama. Com a perna inteira respingada de  barro voltei ao carro. Chorei um pouquinho, mas só um pouquinho. Não foi TPM, não foi pela lama, não foi pela chuva, não foi por tristeza, foi porque foi. Às vezes eu preciso chorar e ponto.

Voltei para casa, deixei a louça suja no mesmo canto que estava. Peguei a bicicleta e fui tratar de me energizar. Ao voltar era outra, ouvindo Radiohead a todo vapor, cantando, acelerando. Voltei na chuva, gostei da chuva. Entrei em casa dançando. Liguei o rádio, lavei a louça, dancei, requebrei sozinha, cantei alto e, quando estava no auge do rebolado, João, que me observava quieto, me deu um susto. Gritei, gargalhei, dancei mais um pouco. Uma amiga escreveu dizendo que estava assistindo ao Oscar. Ligamos o computador e já estava no fim, mas ainda deu tempo de ver alguns discursos ao vivo. Chorei de novo com o discurso breve e forte do roteirista de The Imitation Game. João, que já me conhece, me olhou sorrindo. E eu entendi tudo. Vou para cama ler um livro. Aproveitar para descansar e dormir mais cedo. Está chovendo tanto, a internet não funciona, meu texto não tem como ir ao ar. Boa noite pessoal, que hoje o texto é sonolento, bolorento, cansado, reclamão, chuvoso, choroso. Mas amanhã tem mais.

Comentários

  1. Bia, o texto caiu como uma luva ! Adorei ! Somos normais , de carne e osso, temos nossos altos e baixos no mesmo dia. O meu dia ontem também teve chuva (com aquele trânsito), computador quebrado, não conseguindo acessar a internet para pagar contas, crianças brigando, Curt em Londres e eu me virando nos trinta para dar conta de tudo . Confesso: também chorei um pouquinho! Não sei o porquê, mas me fez bem! Acabei o dia super animada em uma reunião para os pais sobre o novo treinamento de natação do Thomas ! Bjs com muitas saudades de vcs !

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