Spiritus Et Corpus

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Nunca acreditei muito nessa coisa de resoluções, mas, no começo desse ano, pela primeira vez na minha vida, resolvi fazer a tal da lista .
Uma das resoluções diz respeito à espiritualidade: “cuidar mais de nossa espiritualidade”, foi o que escrevi.
Fui criada dentro da tradição católica: batismo, primeira comunhão, casamento. A gente vai na igreja, estuda sobre a Bíblia, se veste bonito, tem a festa, paga os pecados, e estamos todos abençoados. Desculpe a versão simplista , e por favor não me interpretem mal, nenhum julgamento no que acabei de dizer. Não sou de ir na Igreja, não tenho santo de devoção. Quando tinha uma prova difícil, em que não me sentia preparada para tirar a nota que precisava, rezava antes de dormir , e pedia pelo milagre. De vez em quando acendo uma velinha também, dedicando-a a algo ou a alguém; mais pelo fogo e a luz como elementos, do que por qualquer crença
Mais velha descobri que o que me fazia sentir a presença de Deus era a natureza: a montanha, o mar, a cachoeira, um animal, o canto do passarinho de manhã, a florzinha que nasceu. E isso me preencheu, me tranquilizou. Mas não foi suficiente para me identificar com outros pares. Para isso, já li Kardec, já li livro sobre a Cabala, já fui na umbanda. Tudo para dar um nome para esse Deus dentro de mim. E ao mesmo tempo sinto que preciso estar preparada e ser capaz de orientar, e dar o direito de escolha para Lucca sobre o espírito, e a ligação dele com o divino.
Resolução escrita, vamos trabalhar. Meu livro de cabeceira, desde o começo do ano é, “O livro das religiões” : um apanhado geral sobre diferentes religiões. Ao menos assim fico munida de conteúdo para me aproximar da questão com meu filho. Não que eu tenha alguma pretensão de que ele siga qualquer religião, definitivamente não é isso. Mas nessa era tão cheia de conexão por um lado, e com tanta falta de conexão pelo outro, acho que seria muito apaziguador para ele, encontrar um lugar dentro de si em que ele se sinta unido a um todo maior. E seguimos buscando.
Voltamos de férias de fim de ano há pouco. Influenciados pelo destino em que estivemos, onde 98% da população é budista , resolvi que poderíamos experimentar a filosofia. Procurei um centro perto de casa, em que ,aos sábados pela manhã tem aulas de meditação gratuitas para principiantes. Vamos lá.
Família junta, chegamos no centro, que era no basement de um flat, bem pequenininho. Entramos e na sala tinham dois gatos pingados ingleses (um deles o instrutor), e nós, brazucas. Opa chegou mais uma, inglesa, claro. O instrutor faz a introdução, fala um pouco do centro e da filosofia. Agora vamos meditar. Parecia fácil: dez minutos de meditação, orientações dadas , começamos. Os primeiros dois minutos fluíram em paz. Mas depois disso, Lucca que estava ao meu lado, começou a se mexer e a bufar. Levantei os olhos e lancei meu olhar de raio laser para ele, que ele entendeu tudo que dizia, e virou estátua na mesma hora. Sossego por mais um minuto. E aí era eu a incomodada, já doíam as pernas, doíam as costas. A história de deixar os olhos semi-abertos e contar a respiração já não funcionava: era a lista de supermercado, as contas que teria que pagar na minha cabeça. Fecha o olho, concentra… 1, 2, 3, 4 ….A barriga do vizinho inglês começa a fazer barulho, e eu só conseguia pensar que em breve estaríamos dividindo o resultado disso, com o olfato. Lucca já pipocava do meu lado, mas resolvi deixá-lo, seria exigir demais que virasse estátua outra vez. O único de nós que parecia mais zen era Miguel.
Finalmente acabou o exercício: fiquei aliviada por um lado, e até feliz que tínhamos conseguido. Oba!
Na-na-ni-na… agora vem mais dez minutos. Jura? Vai concentra… passaram só dois minutos… que tortura! A essa altura Lucca já quase saltava, e ouço dele: “desculpe, onde fica o banheiro?” E se levantou. Pensei com os meus botões: “bom ele arranjou um jeito, vai dar uma enrolada e não atrapalha ninguém, bom menino!” Só que a necessidade fisiológica era real…, e aqui em Londres as casas não tem isolamento acústico. Se ouvia tudo da sala de meditação, tudo! Da vergonha alheia, o sentimento evoluiu para a diversão e naquele momento meu esforço era para não gargalhar alto.
No livro que estou lendo a primeira frase diz: “Não existe uma definição simples de religião que expresse todas as suas dimensões”. Me dei conta de que vai ser muito mais complicado cumprir a resolução do que eu pensava.
E a questão de cuidar da espiritualidade continua no nosso ar, sublime, ela está no meio de nós.

Comentários

  1. Hahahaha, sensacional Ana. Eu adoro meditação, mas tem dias que o tempo não passa, a coisa não acaba nunca e a lista das tarefas vai ficando maior enquanto a gente pensa. Outros são melhores. Insiste você.

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