Soy loco por ti America

Animada e um tanto solitária na tarefa de representar o Brasil no dia em que se comemora a reunião das nações em Dubai, cheguei pontualmente à reunião na escola das crianças. Sala cheia, tititi, tatatá, até notar que estavam organizados em grupos, falando suas próprias línguas.
E eu… ali.
Bem ali.
Aqui ó. Tá vendo? Do Brasil… sabe? Futebol? Caipirinha… gente fina… Tá, já sei… tem bunda de fora também.

Naquilo que parecia um vácuo de silêncio na festa, de rompante levantei o dedo e perguntei: “Any brazilians here?”
Sentada na primeira fileira, de brinco de pérola e cardigan correto, levanta o dedo minha suposta companhia. Terminado o bafafá, segui adiante cortando a platéia e me sentei ao seu lado. Em português de sotaque sulista, me disse: “- Sou libanesa, tá? Represento o Brasil no International day a cinco anos.” Sem alongar os detalhes: Libanesa / marido brasileiro / morou no Brasil 8 anos / filhos brasileiros…” Entendi, mas estranhei.
Junto dela, uma Venezuelana avisou estar tudo acertado, pontificou que o Brasil sempre esteve representado na barraca da America Latina, desconfiou do meu patriotismo e perguntou: “Will you join us?”.
Próxima reunião amanhã, às 10:00h na casa da Ivette.
…. (dia seguinte. Casa da Ivette.)
Era perto, coisa rara. Fui de bicicleta sem imaginar o que me aguardava.
“Chicas e más chiccas iegando con cositas e cosonas, platitos e platones de una comida perfumada de pimienta, más a dizer que no te pica, unos embrulhaditos de papiel laminado e una mesa que no poderia ser más cheia de comidas e palabras rapidínias que saían de las bocas rubras destas mujeres hermosas, falantes e que se rían de todo, e me mirában pelo canto de sus ohos a pensár por que diábos esta talzinha brasilenha no nos trouxe nada que comer! Mas que desaforada”
Me vi sentada ali, na cabeceira “desse país sem nome, esse tango, esse rancho”, todas a me fazer provar um naco de torta, a competir umas com as outras sobre o segredo do tempero e procedência original de suas receitas. Fora do ar e sem entender muito do que diziam, pensava na intensidade daquelas pessoas, na beleza de seus cabelos, no descompromisso com o gestual que de tão amplo quase me batia na cara. Compreendi a mágica feminina e com olhar de macho, enxerguei a sensualidade que existe numa mulher que expressa, se expõe, que fala alto, “sorriso de quase nuvem”, que se enfeita, se pinta, se gosta, “o corpo cheio de estrelas”.

“Esse povo, dizei-me, arde”

Eu? Separar o Brasil dessa gente? Nem pensar. Soy loco por ti America. Loco por ti de amores!

Entre aspas, a letra de “Soy loco por ti America” e também a minha licença para escrever espanhol como escuto.

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