Generalizações, em geral, não funcionam

telhado de vidro

Depois de semanas marcadas por tempestades noturnas, era finalmente uma sexta-feira de céu estrelado. Ainda não tínhamos tido a oportunidade de viver aqui em casa, com nossos mais recentes e corajosos visitantes, uma noite a céu aberto. Eles atravessaram o mundo, Graça veio ver os netos, o filho e a nora (euzinha). Renato veio namorar, conhecer, nos encontrar. Estávamos felizes, abrimos um vinho (coisa cara e rara nessa passagem por aqui). Os sapos cantavam em festa, disputavam o coachar mais alto e nós, felizes, sentamos para procurar constelações, lembrar de lendas intergaláticas e, claro, falar das impressões dessa nova vida. Pensamos nas inúmeras coisas boas e nas outras tantas estranhas para todos nós, criados em apartamentos e casas semi esterilizados na cidade, até que chegamos ao assunto que não dava para calar. Manchete de todos os jornais no Brasil, assunto no FB com opinões de tantos amigos, tema que suscita revolta, assusta, forma opiniões sobre esse arquipélago em que nos encontramos.

Pois é, meus amigos, o assunto pesa no nosso ar. Os questionamentos são muitos, e sabemos que, à distância, as últimas impressões sobre onde viemos parar não chegam a ser positivas. Mas antes de concluir que esta é uma terra de bárbaros, ou, como escreveu outro dia um jornalista mal informado, que Bali é a “ilha dos piradões”, faço uma sugestão: não dediquem seu tempo ao preconceito. É com esta mesma postura distante e generalista que, do lado de cá, o Brasil pode virar o “país dos traficantes”.

Esta terra, tem uma história longa e complexa. São mais de 17 mil ilhas, com cerca de 300 grupos étnicos nativos e 742 línguas e dialetos diferentes. E neste mesmo país, a maior nação islâmica do mundo, moramos em uma ilha Hindu.

Em Bali o povo local é calmo, generoso, sorridente e até um pouco inocente. Mas aqui mora gente do mundo todo. Gente mais solta, mais louca, gente careta, yogues transcendentais que não andam, quase levitam, pessoas que vieram para a ilha em busca de cura e aqui ficaram (a ilha é famosa pelos healers), tem businessman estressado com seus negócios espalhados pela Ásia, tem mãe solteira, comunidade alternativa, gente que quer melhorar a vida da comunidade local, músicos, artistas, escritores. Tem de tudo.

Nós, por aqui, fomos acolhidos pela comunidade da escola, a Green School. Um lugar de gente que sonha com uma nova realidade, que acredita na importância de juntar crianças e adultos de diferentes culturas para repensar o jeito de lidar com o meio ambiente, que tem como visão um mundo mais humano, respeitoso, diverso, integrado, interligado, pacífico.

E dentro desse cenário, pena máxima, parece mesmo um grande contrassenso. Triste, mas por aqui ou por aí seguimos acreditando e lutando por um futuro de bases mais sólidas, pontes bem construídas e menos telhados de vidro.

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