As várias faces da morte.

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“Mãe, amanhã temos uma visita de campo a um cemitério. Não quero ir. “
No mesmo momento que ouvi essa frase, lembrei do texto da minha amiga Mãe em Rede, Rosane de Zaragoza, publicado essa semana, sobre como a morte vem rondando a cabecinha de Hugo. E pensei… agora me toca. Com os maiores também é um tema mal resolvido.
A proposta da Escola era , já que eles estão estudando o movimento gótico na literatura e na arte, vamos in loco, aprender com a vivência.
Talvez a escola não tenha considerado que a vivência inclui também , apesar de sempre termos uma certa curiosidade, o medo do que não se pode explicar. Afinal, o que alimenta o tema para tantos filmes, livros, e expressões artísticas do gênero mais conhecido como terror, é o fato de não sabermos o que acontece depois que nosso corpo físico para de funcionar.
Apesar de dizer a lenda que esse é um cemitério mal-assombrado, que já encontraram tumbas abertas sem os corpos, segui o conselho da Rosane, e disse a Lucca: “te garanto que ninguém que está lá vai se levantar.”
Ontem, dia da visita ao High Gate Cemetery, ele acorda e se diz gripado e que achava melhor não ir na escola. Imaginando o que poderia estar por trás , tentamos convencê-lo de que poderia ser legal, que se ele perdesse o passeio depois poderia ser prejudicado por não conseguir dar continuidade no projeto da escola. Mas , no final, tivemos que apelar: “se não está bem pra ir na escola, não está bem pra treinar futebol depois”. Com uma dose extra de vitamina C, ele decidiu se agasalhar bem e ir.
Fiquei na dúvida, sem saber se eu havia conduzido a coisa da maneira certa, até um pouco angustiada. Mas pensava que para seus quase doze anos, seria bom ele desmistificar a morte; e nada melhor do que uma visita com a escola ao cemitério para tornar o assunto quase acadêmico.
Ao chegar na escola para buscá-lo, seu grupo ainda não havia chegado do passeio. Fazia frio, e a esse ponto, a dúvida se eu havia tomado a decisão certa de mandá-lo ao passeio, tornou-se preocupação. Assim que apontaram na porta fui ao seu encontro: “Tudo bem? Como você está?” “Tô bem.”; ( eu) “E como foi?” , (ele) “Chato. Tinha um guia que ficava falando o tempo todo, porque esse morreu disso, aquele morreu daquilo, e etc e etc.”
Chegando em casa Lucca decidiu que era melhor não ir no futebol. Aí minha amiga Culpa, que às vezes vem me visitar, já estava sentada do meu lado e dividia a xícara de chá comigo. E comigo ela ficou, me ajudou a fazer o jantar e tudo.
Na mesa , todos juntos, começamos a conversar sobre a visita ao cemitério. E dessa vez a versão de Lucca se tornou outra. Ele contou que lá estavam os corpos de muitas pessoas famosas: políticos, filósofos, artistas. Falou de Marx; de Thomas Sayers um pugilista da época vitoriana, quando pugilismo era proibido aqui; de Alexander Litvinenko, espião russo que foi envenenado em 2006 aqui em Londres. Falou da vida mais que da morte.
Nem percebi, mas minha companheira culpa foi embora, sem nem se despedir. Deu até vontade de um dia visitar esse cemitério tão cheio de histórias.
Hoje eu acordei gripada, me sentindo mal, e se tivesse que ir para escola ia pedir para ficar em casa.
Vivendo e aprendendo: com a morte e sobre a vida.

Comentários

  1. Aos poucos aprendemos todos com a morte, a idade vai fazendo isso com a gente. E quanto mais cedo eles aprenderem, melhor para eles aprender a lidar com a vida. E mãe é para isso mesmo, empurrar para fora do ninho… bjss

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