HO HO HO

IMG_0877

Querido Papai Noel,

E todo ano começava assim o bilhetinho em que pedia meu presente de Natal. Por dez anos eu realmente acreditei no senhor da barba branca, bochechas rosadas, barriga saliente, vestido com uma pesada roupa vermelha, que não se justificava para o verão Brasileiro. Naquele Natal eu havia pedido uma boneca. Sou da época da Susi, e tinha pedido uma Barbie, que era a nova febre entre as meninas.

O Natal sempre foi A FESTA, esperada o ano todo. A família estendida toda reunida, em volta de uma mesa enorme repleta de comida boa, que minha mãe , e cada uma das minhas várias tias preparavam com muito carinho. É a concorrência mais divertida e prazerosa que um ser pode vivenciar. “Aninha, já provou o salpicão da tia? “ “Pega um pedacinho do meu tender”, “A farofa doce fiz pra você “. Cada uma “vende” seu prato e ficamos ali a degustar aquele alegre banquete. Mas sempre esperando ansiosamente as sobremesas, para ver se naquele ano alguém bate a cassata da Tia Cema.

Quando chega meia noite , toda família ,de mais de 30 pessoas, se levanta em volta da mesa , claro , e de mãos dadas fazemos uma prece de agradecimento . A essa altura meu  coração já começava a bater mais forte, porque depois disso vinha  a descoberta dos presentes. E não é pouco presente não, todos dão presentes para todos. Pode ser uma lembrancinha, mas todo mundo ganha de todo mundo. Um exagero, mas vai mudar tradição?  Enquanto a diretoria da família estiver sob gestão da geração de nossos pais é assim que será.

Voltando à revelação sobre Noel daquele ano… Eu pedi a Barbie, a Barbie não veio. Não para mim, mas minhas primas ganharam. Primeiro pensei que eu realmente não merecia , e pensei em todas as traquinagens que tinha aprontado naquele ano…qual tinha sido a definitiva para não ganhar a Barbie? Depois percebi que não era bem isso. Todas as crianças menores ganharam brinquedos, e eu ganhei tudo, até sutiã, mas brinquedo não. Já percebeu como, de repente,  te abandonam nessa história que inventaram para você, durante anos, de Papai Noel? Alguém decide que não vai mais sustentar essa mentira, sem nem perguntar se você está preparado , e pronto. Lá veio o sutiã que nem fazia sentido. Minha Nonna que era uma pessoa muito sábia e atenta a seus dez netos, percebeu meu desolamento. No dia seguinte, dia do Natal, para continuar a maratona, nos reunimos de novo. Assim que cheguei ela me puxou no canto e disse : “achei esse presente embrulhado pra você lá em casa hoje de manhã. Acho que ele ( e não mencionou quem, mas era Noel), errou a casa da festa”. Na etiqueta do embrulho dizia, “Para Ana, Feliz Natal”. Abri rapidamente e era uma boneca de pano. A mais linda de todas as bonecas. E na minha boca fez-se o sorriso enorme. Abracei minha boneca e minha vó , e corri para me juntar à roda de primos que brincavam com seus brinquedos novos.

Minha vó era uma mulher realmente especial.

Ano passado Lucca escreveu sua cartinha para Papai Noel, como sempre fizemos até agora .

Esse ano ainda não.

Mas ele já vinha dando sinais de desconfiança há muito tempo. No ano que mudamos para Madrid, no Natal nos reunimos com toda a família. Lucca tinha seis para sete anos, os filhos de meus primos também eram pequenos. Então, decidimos que ia ter Papai Noel. O Papai Noel da vez , com sua barriga de travesseiro, seria meu irmão, Daniel. Depois da comilança e do agradecimento, chega a hora de entrada triunfal do Papai Noel. As batidas das tampas das panelas no jardim, viraram os sinos das renas. Chamamos toda a criançada para fora , para ver as renas voando no céu. Quando voltamos demos de cara, no escuro, com Papai Noel indo embora . Uma explosãoo de alegria e todos correram para a árvore, para checar os presentes.

No dia seguinte Lucca acorda, feliz da vida, revendo seus presentes, e ainda muito entusiasmado diz, “mãe , você viu que o Papai Noel usava um óculos igual o do tio Dani?”

Não ! Não vi ! E não faça isso comigo, por favor: era o que eu tinha vontade de responder. Mas saiu só :

– Que coincidência, não é! Mas você ouviu que barulhão fizeram as renas?”.

Há três anos não vamos para o Brasil no fim do ano. E desde então, sempre veio a pergunta:

– Como é que ele sabe que tem que entregar meu presente em outra casa, em outro país? Como ele sabe que mudamos de novo? “

– Filho, é só escrever no envelope o novo endereço . Mas se você quiser , ainda pode colocar no texto da carta.

Era mais ou menos fevereiro desse ano, quando, um dia, voltando da escola tivemos o seguinte diálogo:

– Mãe, papai Noel é muito rico, não é?

– Por que?

– Porque ele só pode ter muito dinheiro para comprar presentes para todas as crianças.

– Não é bem assim Lucca … – e na minha cabeça passou que a história dos doendes e da fábrica de brinquedos não ia mais colar. Aprendi que quando você não sabe o que responder é melhor devolver a pergunta. Ao menos você ganha tempo….- Como você acha que acontece?

– São vocês que compram, não são mãe?

– É… veja bem… sim filho, nós compramos.

Silêncio mortal… e a verdade surgiu, mas resolvi que isso não podia ficar assim e disse:

– Mas isso não quer dizer que ele não exista filho. Eu acredito de verdade que ele existe. Não desse jeito que ele aparece nas propagandas . Mas, do fundo do meu coração, eu acredito que ele exista.

Querido Papai Noel,

Esse foi um ano de muitos novos desafios. Mais um novo país para nossa lista de casas , Lucca crescendo, virando um pré-adolescente, e já dando sinais de que tudo vai ficar mais intenso. Miguel e eu bem, descobrindo as dores e as delícias de viver em uma megalópole. Cuca acaba de completar 15 anos e adora correr pelos parques aqui de Londres.

Queria agradecer todos os presentes que recebi ao longo do ano de você. Apesar de ter deixado, por um tempo de escrever no Mães em Rede, quero dizer do quanto sou grata por ter conhecido pessoas com as quais aprendo tanto. A cada uma das mães em rede, mando minha mais afetuosa energia de gratidão via universo. Se pudesse, queria dar um abraço em cada uma delas. Quem sabe esse não é um bom presente … deixo nas suas mãos.

Agradeço também à vida, à saúde e à prosperidade daqueles que eu amo e que são importantes para mim.

Agradeço ainda pelos lugares lindos por onde passei, e mais que isso, pelas pessoas maravilhosas que tenho encontrado durante a jornada.

Sinto que fiz minha parte no que cabia a mim realizar. Algumas vezes consegui realizar só o que era possível. Mas, na maioria das vezes, acho que me esforcei o suficiente para conseguir mais do que o possível. Sou humana, com todos os defeitos e qualidades que isso implica.

E se não for abuso, eu queria fazer meus pedidos: são só dois. Por favor,  não deixe faltar água em São Paulo . E nem magia no mundo: isso é que faz tudo mais bonito. É daí que surgem as crenças, os amores, e a delicadeza.

Por isso, ainda espero a carta do Papai Noel de Lucca deste ano.

Feliz Natal, para você e para todos.

Um abraço bem gostoso .

Ana

Comentários

    • Obrigado Rosane, pra mim esse nosso ponto de reunião está na categoria privilégio. Um beijo grande pra vcs também e que venga 2015, com muitas boas histórias pra dividir. beijo especial pra você.

  1. Ana, querida, como vc me emocionou com seu lindo e afetuoso texto. Agradeço muito, muito mesmo por ter vcs na minha vida tb. Obrigada por tanta emoção e um 2015 vitorioso para vcs!

    • Raquel, foi você me abriu essa porta, que me fez muito alegre em 2014. Sou eu quem agradeço. E que venha 2015 mas com muito mais emoções pra todas nós. beijo enorme

Comentar