Crise

Eu sou péssima contando piadas, mas tem uma que anda circulando bastante por aqui, então, vamos tentar:
” Um amigo conta para outro:
_ Cara, você não vai acreditar! Ontem, eu saí do trabalho, entrei no carro para voltar para casa e vi um unicórnio!!!
_ Não acredito!!!! Você tem um trabalho?!!!!”
Nada como rir um pouco dos problemas, não? Já são oito anos de crise econômica na Espanha e onde ela mais se reflete no dia a dia é nos impressionantes números de desemprego no país: 25% da população economicamente ativa está desempregada. Vendo de outro modo, a Espanha tem 45 milhões de habitantes, destes apenas 19 milhões tem emprego. 19 sustentam a 45! Uma matemática que definitivamente não fecha.
Nas férias no Brasil, ouvi muitas vezes que a época da bonança já tinha passado e que o Brasil estava em crise. Minha resposta era sempre a mesma: vocês têm memória curta. Eu me lembro perfeitamente o que é uma crise econômica brasileira. Lembro de ir com minha mãe nas filas quilométricas nas Sendas para comprar feijão, porque havia escassez no mercado. Lembro do Plano Cruzado, quando passei um ano sem provar carne. Lembro dos anos de hiperinflação, quando você tinha que comprar rápido pois as máquinas de remarcar preços trabalhavam sem parar. Lembro do Plano Collor quando o dinheiro simplesmente desapareceu. E depois do Plano Bresser…
Enfim, tenho 43 anos e minha vida inteira passei de crise econômica em crise econômica, sou experientíssima nesse quesito e quando as coisas aqui começaram a apertar, pensei: neguinho espanhol reclama de barriga cheia. Mas oito anos se passaram e a médio e curto prazo não tem nenhuma mudança à vista. A crise se aprofunda e vemos situações absurdas, como jovens chegando a casa dos 30 anos, com título universitário, falando várias línguas e que nunca trabalharam na vida. Já se fala e uma geração perdida. Profissionais experientes, com grandes currículos, há dois, três anos sem emprego. Gente imigrando. Até o momento perdemos três amigos: um para a Rússia, um para a Holanda e outro para a Arábia Saudita. E quem tem emprego, viu seu salário diminuir calado, pois foi a “solução” do governo espanhol, já que a moeda não pode ser desvalorizada.
Vimos também situações que pareciam que nunca mais se repetiriam na Europa: esse verão, várias escolas abriram durante as férias escolares para garantir pelo menos uma refeição diária às crianças carentes. É, estamos falando de falta de comida na mesa de casa. Isso que o sistema de ajuda social funciona. Aqui o salário desemprego pode durar até um máximo de dois anos. Depois disso, se a pessoa não tem trabalho e a família não tem outra fonte de renda, o governo dá 400 euros ao mês. Uma espécie de Bolsa Família espanhola. É com esse dinheiro que muitas famílias estão mal vivendo.
Poderia seguir contando casos e casos, mas vou tentar sacar meu lado mais Pollyana e encontrar pelo menos um lado positivo. Quando busco a Hugo na escola, em muitos dias há mais pais que mães fazendo essa tarefa. Isso se explica porque o desemprego é mais alto entre os homens que entre as mulheres e em muitas casas os papéis se inverteram: a mulher trabalha fora e o homem cuida dos filhos. Vejo a crianças muito apegadas ao pai, simplesmente porque este tem tempo para estar com elas. E pais muito dedicados ao cuidado dos filhos. Enfim, quando tudo passe, porque passará, crises vêm e vão, os pais não terão uma boa memória dessa época, mas talvez seus filhos sim. Não havia muito dinheiro para brinquedos caros, mas havia um pai presente que brincava com seus filhos no parque todas as tardes. E isso é todo um luxo.

Fila para se inscrever no Instituto de Emprego (ou seria do desemprego?)

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