Entre tapas e beijos

Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos foi O Deus da Carnificina (Carnage), de Roman Polanski, baseado na obra teatral Yasmina Reza. Ri muito porque nosso dia a dia é assim:
Você está no parque/pracinha com teu filho pequeno. A criança encontra algo com que brincar, que pode ser um brinquedo qualquer ou um simples graveto. Imediatamente outra criança se interessará pela mesma coisa. Não servirá um igual ou parecido, tem que ser o mesmo. Invariavelmente a disputa pelo objeto em questão terminará com um intercambio de tabefes. Quem vê de longe um parque infantil, não tem idéia do tamanho das batalhas travadas por causa de uma pedra, uma pazinha, por de quem é a vez no balanço. Criança briga quase na mesma proporção que brinca. É parte da sua socializaçao, dizem, por mais que isso nos canse, irrite, nos obrigue a estar atentos em todos os momentos. E eu não noto nenhuma diferença nesse comportamente infantil nas crianças espanholas para as crianças brasileiras. As disputas, os empurrões, os eventuais tapas são iguais nos dois países. Mas sim que noto uma diferença na reação dos pais brasileiros para os espanhóis. Minha dúvida e pergunta as minhas companheiras de blog: vocês já perceberam alguma diferença?
A primeira que me chama atenção é que nos parquinhos brasileiros nós nos relacionamos mais com as babás que com um pai ou mãe. E elas, babás, são, ou costumam ser, muito mais disciplinadoras que os pais. Se a criança sob sua responsabilidade se comporta mal, dão logo bronca. Se é a mãe (obviamente é uma generalização), a coisa é mais frouxa se é a sua criança é a “agressora”, mas viram leoas se sua é a “agredida” e passam a dar bronca na outra criança sem esperar a intervenção dos pais ou retiram sua criança do parque, falando mal do potencial criminoso que se está formando com dois anos.
Conto isso porque já me passou algumas vezes. Na última, estava com os meninos em uma piscina de bolinhas no Brasil e uma menina começou a jogar bolas na Carol. Ela não estava gostando nada, mas as duas eram da mesma idade, eu não interferi. Carol que aprenda a se defender. Mas dado momento, Hugo se encheu da menina estar molestando a sua irmã e deu-lhe um tapa na cara. O pai da menina veio com tudo para dar bronca no garoto. Minha reação normal seria fazer Hugo se desculpar com a garota, mas diante de tal atitude, só pude defender ao meu filho e tive que bater boca com tal pai.
Esse tipo de situação nunca aconteceu comigo na Espanha. Hugo já apanhou e já bateu. Já trocou socos e chutes com alguns dos seus melhores amigos e continuamos todos bem: ele com o outro menino e eu com os pais. Quando passa algo, as crianças são obrigadas a se desculpar uma com as outras e se acabou o problema. Às vezes também acho que aqui se exagera, que os pais interferem demasiado, sempre obrigando às criaturas a pedir perdão. Penso que se não estivéssemos, eles brigariam bem menos. Mas manda a etiqueta local agir assim e, embora muitas vezes não esteja de acordo, lá vou eu:
“- Pede desculpas ao amigo. Isso. Agora um beijo.”
Parece ser que aprender a se socializar nos parquinhos não é apenas para as crianças. Nós pais também precisamos.