Volver

Pedro Almodóvar, durante o lançamento do filme Volver, disse que quando voltamos a casa materna, a pessoa que retorna é sempre aquele que partiu, não aquela em que você se transformou no tempo em que ficou fora. Ele tem razão. Voltar para a casa, e essa casa pode ser a casa da tua mãe, dos amigos ou mesmo um país inteiro, será sempre para reencontrar com o teu passado, como se o tempo tivesse ficado congelado e as relações fossem retomadas exatamente onde você tinha deixado. É o lado bom de se sentir em casa, onde as explicações não fazem muita falta, onde não precisa contar quem você é, até porque lá não dá para enrolar ninguém. Mas também é duro saber que mesmo que você já tenha passado dos 40, você ainda tem que ouvir: “tá levando a chave?”, “leva o casaco que vai esfriar” (em Natal??!!), “mas você vai no aeroporto sozinha?!”… Tempo, essa coisa tão relativa.
Não, nem sempre é fácil voltar. Embora o tempo possa parecer que não tenha passado, ele passou sim. E as mudanças estão aí no dia a dia. Sobrinhos que já vão a universidade, que te dizem que estão pensando em ir viver com o namorado, sobrinho-neto que nasceu (!!!), amigos que mudaram de trabalho, de profissão, de casa, de cidade… “onde foi parar o predinho onde eu morava?” Pois agora é esse edifícil de 15 andares! Não reconhecer ou não encontrar teus lugares preferidos é o mais comum. Ou reencontrar e descobrir que virou outra coisa. Estranho. Agora sim você se dá conta que o tempo passou e ninguém te perguntou se você acha isso legal. E pior: não perguntaram se podia!
Voltar com dois filhos pequenos significa que para você também o tempo andou. E é um grande prazer mostrar para eles alguns prazeres atemporais da infância brasileira: picolé na praia, soltar pipa na praça, queijo coalho na brasa, banho de mangueira no quintal, “andar meio pelado, pintado de verde, num eterno domingo”. Mas também são a razão para que o teu tempo pessoal seja outro. Tuas questões e preocupações sejam outras. Enfim, meu tempo é mais curto agora e tem que ser bem aproveitado. Sem espaço para chatices desnecessárias.
E voltar agora também tem outro lado: o espanhol. Fim de férias e volta para casa e para a rotina. 40 dias fora e parece que não foi nada e parece que foi muito. Vamos voltando ao nosso ritmo pouco a pouco, também pensando no que mudamos nessas intensas férias. Choque cultural outra vez. Os dois lados do Atlântico. Ainda bem que as crianças tiram isso de letra e não estão como eu pensando no tempo. Ah tempo…
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