Perdas e Danos

Diz a lenda que a dor é um sinal de que alguma coisa não vai bem. Ela só dói que é para chamar nossa atenção.
Na minha vivência, toda perda tem dor. Se não doeu, não chegou a ser uma perda.
Viver uma perda quando você está “longe de casa” tem dois lados. Um deles é que a dor parece mais forte, por você não ter por perto o que te é familiar: a acolhida, o conforto, o calor, o olhar carinhoso, o gosto do chá quentinho ,que pode ser até de carqueja, mas que cura. O outro lado é o que se refere à máxima, “o que não te mata te fortalece”. Essa também é real.
Nesses anos fora do Brasil, já vivemos perdas de várias categorias: pequenas, grandes, significativas, profundas e irreparáveis. Mas graças a Deus, não foram muitas.
Perdas que me fizeram ver o que consigo e o que não consigo bancar, nessa história de um oceano que me separa da minha família e de meus queridos amigos.
Banco falta de grana, perda de emprego, pernas quebradas, gripes fortes que deixam pessoas queridas de cama. Meu limite já aparece nas separações, discussões feias, família sofrendo, amigos sofrendo, internações, e problemas mais sérios de saúde. Aí o skype, whastapp, facebook, telefone, e qualquer outro instrumento de comunicação são indispensáveis, para dar uma rasteira na distância. O que é mais difícil na “con-vivência” à distância de uma perda, é a falta de alguns sentidos: você pode ver, você pode escutar, mas você não pode sentir o calor do abraço, sentir o cheiro, o gosto.
Algumas vezes a perda é de quem está lá. Outras é de quem está aqui. Mas as irreparáveis, são as que são conjuntas. Essas são de lascar. E lasca na alma. Nunca mais nada será igual. Para esse tipo de perda, meu limite são vôos de no máximo 12 horas de distância. Por isso, não existe ainda nenhuma possibilidade de aventuras familiares nos confins do mundo. Só se for por um período curto, e quando tudo do lado de lá do Atlântico, estiver aparentemente bem.
Antes que alguém possa pensar que algo grave acontece… Não, estamos todos bem.
É que pouco, ou nada se fala de temas difíceis para quem vive fora. Esse pra mim é o ponto nevrálgico.
E a saudade também.
Hoje daria meu reino por poder pegar meu carro, atravessar as marginais de São Paulo, e ir à casa de minha tia Déa. Entre xícaras de chá doce e bolinhos de chuva, dividiríamos as impressões sobre a vida, as histórias da família, as estrepolias da infância, e os lugares que ainda queremos conhecer, quem sabe juntas … Tudo recheado de afagos e mimos. Saberíamos das perdas de cada uma de nós. Elas estariam ali também, mas em silêncio. Não precisariam ser tocadas. Não verbalmente. Nessas horas é o afeto que fala, e respeitando a existência da dor das perdas, as tranqüiliza, as acalma, cura. Logo logo é aniversário da minha tia. E esse nosso encontro, que vai ficar pra daqui a pouco, assim como a comemoração de seu aniversário, do meu, do dia das crianças, do dia de São Nicolau, do Natal, do ano-novo, e todos os dias de festa que celebraremos ,estarão nessa xícara de chá. Tia, me aguarde.
Tim-Tim. Saúde.

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Comentários

    • Oh Rosane, desculpe… não queria que te fizesse mais dura a volta.Tô sentindo falta de seus textos! Cadê, cadê? Sei o corpo vem de avião, a alma vem a pé, demora um pouco mais a voltar… Mas volta logo!

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