Tiranos e malvadas

“-Mamãe, você só trabalha! Não me dá atenção! Você é malvada!”
Reclamou Hugo quando eu tentava responder alguns e-mails. As amigas já tinham me advertido: filho cobra. E como cobra! Também chantageia. Faz drama. Pirraça. Se joga no chão. Lembro da época que não tinha filhos e quando via uma criança fazer esse show na rua pensava: culpa dos pais. Pois é. Deve ser. Mas aprender a lidar com a tirania desses pequenos de três anos talvez seja a coisa mais difícil para os pais. E a única opinião unânime sobre esse tema é: tenha paciência, mesmo que tua vontade seja levantar a criatura pela orelha. Paciência.
Lembro-me, quando era pequena, ter ouvido muitas vezes uma frase da minha mãe:
“- Criança não tem querer.”
Na verdade, não era bem assim e muitas vezes tínhamos e exercitávamos nos quereres. Mas havia coisas que não se negociava. A comida era o estava no prato. Refrigerante, só nos domingos. Se a mãe falava, se obedecia. Havia que estudar e passar de ano. Era assim a vida no subúrbio do Rio e a vida em nossa casa não era muito diferente da vida na casa de nenhum de nossos vizinhos. Os pais eram presentes nas nossas vidas. A mãe cuidava de tudo que se relacionasse com a casa e alimentação. O pai era o encarregado das compras, passeios, diversões, aventuras e ajuda com os deveres. Mas não me lembro dos meus pais tão empenhados em nos entreter como parece que hoje estamos obrigados com nossos filhos. Podíamos perfeitamente passar uma tarde de sábado em casa sem nada em concreto que fazer. Brincando com nossas coisas, com alguma amiga da vizinhança que aparecia e nada mais. E se reclamava que não tinha nada que fazer, minha mãe dizia:
“-Na pia tem louça para lavar.”
Havia espaço para o tédio e ninguém se sentia mal por isso. Porque o tédio proporcionava imaginação e a espera por um passeio especial, a maior das alegrias.
Para nossa sorte, o lado bom de viver fora do país é ter uma vida mais próxima aos filhos. Ausência de babás e afins, de longos períodos de tempo perdidos no trânsito caótico, estar longe da família faz com que você simplesmente não tenha opção. Cada um cuida da sua prole e se acabou a história. Mas ao mesmo tempo parece que não apenas temos que cuidá-los, amá-los e educá-los como também temos que distrair-los, que não podem estar sem fazer nada, que temos que preencher todo o espaço dos seus tempos com alguma atividade que seja do interesse deles, que parece que os pais é que não tem mais querer. A infância dos pequenos deixa de ser algo prazeroso para ser uma espécie de tortura para pais cansados de tantas demandas, sem tempo para serem adultos depois que saem dos seus trabalhos. E novamente, nossa vida, não é muito diferente das dos nossos vizinhos.
Criar pequenos tiranos é o grande medo que temos os pais atuais. Equilibrar a demanda para que todos sejam atendidos nos seus “quereres”, não apenas os pequenos, mas também os pais, o mais complicado. Nesses dias de férias escolares é o assunto do momento. Vamos andando sem respostas prontas, sem modelos a quem copiar. Tentando dar o que aprendemos em casa, mas também mudar aquilo que não gostávamos tanto. E também descobrindo que a figurinhas de 3 e 2 anos já tem personalidade. E como!

Criar o Jeoffrey, o pesadelo dos pais atuais.

Criar o Jeoffrey, o pesadelo dos pais atuais.

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