As Praças

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Grávida de 7 meses de Lucca resolvemos mudar de casa.  Cada idéia … 8 meses, um barrigão  enorme, no começo do verão de 2003 fizemos  a mudança. Aquela seria nossa segunda casa, das seis até agora, junto com Miguel.
Na época nos apaixonamos mesmo foi pela casa. Não demos muito valor ao fato dela ficar ao lado de uma praça, e muito perto de um parque. Coisas que aprendemos , entre tantas outras, como pais de primeira viagem. A  praça se tornou fundamental na primeira infância de Lucca.  Era lá que eu passeava com ele e com Cuca, todas as manhãs. Cuca vinha na coleira que se encaixava no carrinho do meu bebê. Foi lá que Lucca teve seu primeiro contato com o tanque de areia , a gangorra, o escorregador, o balanço. Fez os primeiros amiguinhos. Lá  fizemos sua festinha de dois anos. Fizemos também  seus primeiros passeios na bicicleta com rodinhas. A praça, mais que o parque, foi uma grande companheira dele, em sua  primeira fase de vida.  E nossa também . Que saudade  me  bate enquanto escrevo essas linhas…
Só que,  durante os primeiros anos de vida do nosso pequeno, à medida que ele ia ganhando mais autonomia e liberdade, infelizmente, nós íamos perdendo a liberdade no nosso bairro: o número de assaltos às pessoas e às casas aumentaram muito.  Além dos seqüestros relâmpagos. Com isso, a praça foi se esvaziando.
Muito triste.
Como substituição à praça, ficamos sócios de um clube. Tudo lindo,  divertido, funcionando, mas também  asséptico. Sim, do meu ponto de vista, perdíamos uma fonte de riqueza enorme para a formação de Lucca: a possibilidade de convivência com a diversidade, a compreensão de  compartilhar  um espaço público com todos, sem discriminação. Porque todos nós deveríamos ter direito a brincar, e fazer da brincadeira um exercício de desenvolvimento físico, emocional e social. Sempre pensei que isso pode ser compreendido desde muito pequeno. Assim mesmo, brincando. Frustração de Polyana à parte, aproveitamos muito e brincamos muito no clube também.
Com a perspectiva da mudança para Madrid, a praça voltou a circular nosso desenho de lar. Tornou-se um dos critérios na escolha da casa. Encontramos . E a experiência deu tão certo que de lá pra cá, em todas as mudanças, as casas têm sido bem diferentes,  mas a praça, ah, essa está sempre presente.
Em Madrid, quando Lucca era  menor, a praça dava de costas para nosso prédio. Lembro claramente do som das crianças brincando ali, logo em seguida do término da aula, todos os dias. A diversão delas era música para mim, e um chamado para Lucca.  Ainda buscávamos ali alguns brinquedos infantis, mas, em pouco tempo, o alvo dele  tornou-se a  quadra poli-esportiva.  Foi  naquela quadra, que também era usada como campo de esporte da escola do bairro, que Lucca começou a se aventurar nas brincadeiras de rua. Sem mediação dos adultos, tendo que se virar  com  as negociações e conflitos. Mas sob o olhar observador de mães e pais e avós, que facilitavam os processos se a crise partisse para o contato imediato de terceiro grau.
Depois veio Milão. Achei primeiro nossa praça no google earth, e depois procuramos a casa. Não importava muito se o apartamento era antigo. Era de frente para uma praça. E, dessa vez, ela  tinha duas quadras de esporte: uma de futebol  e outra só de basquete.  De nossa  sala Lucca poderia ver se seus amigos estavam jogando. A partir dos 9 anos ele descia sozinho para brincar. De vez em quando eu espiava lá de cima, só para checar se estava tudo bem.
Aqui em Londres não foi diferente. Achamos um pequeno parque. E veja o luxo, é “mega-poliesportivo”: tem  até quadra de tenis! A partir dessa descoberta, ficou muito difícil escolher outro lugar.
Não estamos nem de frente, nem de costas para o pequeno parque. Mas, com 11 anos,  Lucca vai  para lá a pé e sozinho, desde o dia seguinte de nossa chegada. 5 minutos caminhando, ele está no parque. Ele mesmo criou uma nova rotina  de férias ali.  Faz seu curso de verão de tênis pela manhã, junto com outras crianças do bairro ,  à tarde se encontra  com os novos colegas. Às  vezes rola até um futebol, se o campo estiver liberado. Às quintas-feiras, treina gratuitamente com o time de futebol juvenil do bairro.
Só tem um porém. Sabe aquela  espiadinha da janela, que eu dava em Milão?  Agora tenho que inventar uma desculpa, um passeio de Cuca  para tranqüilizar meu coração. Claro que tenho receio. Londres ainda é desconhecida, mais complexa, mais diversa, mais dinâmica que Madrid e Milão. Às vezes o fato de nos virarmos com a língua, dá a falsa sensação de confiança.  E vamos com calma, por enquanto.
Nosso desafio é orientá-lo para que ele possa seguir  com suas novas conquistas, que aqui se potencializam, por serem  vividas em uma nova cidade, com uma nova cultura.  Difícil  é dosar a mão no : fique esperto, seja cuidadoso consigo, cuide das suas coisas, se respeite antes de tudo, saiba dizer não,  respeite os outros, as regras, a natureza . Tudo isso, sem  tocar o  terror… Como alertar para os riscos , sem que eles sejam uma ameaça? Sem gerar medo? É, quem disse que crescer é simples?
As praças do mundo estão aí para serem vividas. Espero que Lucca possa aproveitá-las ao máximo, e que elas sejam sempre presentes em nossas vidas.
Agora preciso ir. Cuca tem de fazer um passeio ali no parque, assim eu alivio meu coração também.

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