Vida que pulsa.

A calça de Lucca está curta. As minhas estão largas.

Os brinquedos que ainda estavam novos têm que ser doados. As roupas que
não usamos mais, também. Não cabe mais nada no armário da casa nova.

O fio de cabelo que caiu. Nasce outro, talvez esse venha branco. Os primeiros cravos no nariz dele marcam a entrada em uma nova fase. Mais dinâmica.

O gol . O mundial que se aproxima. O match-point . Federer perdeu de novo. Nadal ganhou de novo. Rolland Garros que já vai terminar.

A despedida. Os encontros.

Respira: inspira, expira.

Inspira: transpira, suspira.

Os parentes que não ligam. Os amigos que acolhem e ajudam. A nova amiga
que precisa de um abraço. Os velhos amigos que nos esperam.

“Mãe, não vou mais ver o Nico, agora que não estou mais perto da praça?”

” Filho, preciso viajar para receber nossa mudança. Você fica bem na
casa do Nico?”

O primeiro contato imediato com um novo círculo. A festa estranha com
gente esquisita.

O olhar do estrangeiro que torce o nariz para  tudo o que não é familiar. A hora  de se despir do que é conhecido.

O avião. A bicicleta nova, linda, igualzinha a que roubaram.

O metrô. O carro batido. O caminhar pela cidade.

A mesa velha que tem que caber na sala nova.

Por quê acumulamos tantas coisas? Por quê?

Vai ter que caber.

O sofá novo que vai chegar. Que alegria ter um sofá novo!

Estudo todos os movimentos do taxista, enquanto finjo observar a paisagem
e reconhecer alguns pedaços do novo cenário. Dirigir do outro lado deve
ser muito estranho. Tenho medo. Por que esses ingleses querem ser
diferentes em tudo?  Tenho curiosidade. Aprendo.

A dor de garganta. O calor do verão que chega.

O nó na garganta. O calor do verão que não sabemos se vai chegar.

Expande – contrai. Sístole – diástole.

Tum-tum, tum-tum.

Tem que caber tudo. Porque nessa vida, no fim das contas,  tudo cabe.

O início, o fim e o meio.

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