Da escola para casa.

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Talvez por conta da crise e do desemprego, um grande número de pais acompanhe cada vez mais de perto a educação dos filhos e assim vão descobrindo que estão muito descontentes com o sistema educacional do país. Seja na escola pública (aqui uma realidade para todos) ou na privada (com raras exceções) os questionamentos são grandes. É claro que não dá para generalizar, mas tenho ouvido todo tipo de contestação: “com o país em crise, o caminho de reconstrução passa por empreender. Esse é o movimento da vez e, de verdade, não fomos educados para empreender. Somos produtos de uma educação feita para obedecer, para ser uma parte funcional da engrenagem do sistema.”. Ou “nesse sistema de ensino automático, em que as crianças são mais do que tudo avaliadas constantemente, sem dar o devido tempo que cada uma precisa para aprender, acaba-se rotulando muitas delas de incompetentes ou inadequadas para o aprendizado, o que não constrói auto-estima e ainda humilha essas crianças.”. E mais: “as escolas não estão preparadas para deixar florescer o que o ser humano tem de melhor, não valorizando as diferenças e nem estimulando os talentos naturais de cada criança.”.

Com tantas questões na mesa, o homeschooling vem crescendo mais rápido do que ‘sempre’. E vale dizer que essa tendência não é restrita a Portugal, mas é também uma realidade crescente nos EUA e em vários países da Europa. Com o ensino doméstico, os pais podem escolher ou inventar a metodologia de ensino que bem entenderem. No Brasil, o homeschooling não é permitido por lei.

Mas, antes que a família e os amigos achem que eu resolvi abraçar o ensino doméstico aqui em Portugal, digo logo que NÃO. Sou boa mãe, quero educá-los, estar perto da escola e vou estar sempre atenta para ajudar no que for preciso, mas se tem uma coisa que admiro, preciso e quero bem perto como parceiros, são os bons professores.

Acontece que, nessa onda do homeschooling, a mãe de um ex-colega do Bento, de quem gostamos muito, resolveu se associar a outros pais e criou a Florescer, uma Associação para a Educação Global em Portugal. Um centro de estudos com uma abordagem comunitária, dedicado ao apoio a crianças em Ensino Doméstico, onde os pais podem cuidar diretamente da educação dos filhos, mas sem fazer isso em casa, isolados, privando-os da convivência com outras crianças. Na Florescer participei de uma conferência muito especial com o professor José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, uma escola de vanguarda que fica no norte de Portugal. Curiosamente, aqui na terrinha, poucas pessoas a conhecem pois, ao que parece,a tradição e o conservadorismo conseguiram manter segredo sobre esse movimento de educação. Já no Brasil, a escola é uma referência importante entre escolas privadas que privilegiam o ensino não tradicional. A boa notícia é que o professor José Pacheco está morando no Brasil e já tem o seu projeto, o Projeto Âncora, em Cotia SP.

No dia da tal conferência a sala estava abarrotada. As pessoas amontoadas estávam ávidas por ouvir e pensar juntos. Ele, que se define como um velho idealista, começa com uma provocação, mais ou menos assim:

– Pessoal, aproveito a sala cheia de gente que frequentou boas escolas para pedir que levantem as mãos:

”Os que aqui se lembram como se faz para obter a raíz quadrada de 47.
Os que sabem explicar a diferença entre adjunto adverbial e adjunto adnominal.
Os que lembram quando, onde e por quem foi realizada a primeira missa ….”

Depois da gargalhada geral, já que ninguém, mas ninguém mesmo, levantou as mãos, o professor explicou brevemente como funciona o projeto pedagógico com o qual trabalha – não há turmas divididas por idade, não há paredes, não há aulas de 50 minutos. Os alunos se dividem por projetos de afinidade, que acontecem a cada quinze dias. Cada um escolhe o que mais lhe interessa e se forma um grupo para desenvolver o(os) projeto(s). Para realizá-los, aprendem História, Matemática e Física. Tudo na prática. Os maiores mestres são os próprios alunos, que são também responsáveis por ajudarem uns aos outros. O professor funciona efetivamente como um mediador, ou alguém que os ensina a fazer as perguntas certas e a procurar, através da pesquisa, as respostas adequadas. O aprendizado se dá por meio da construção de projetos em grupo e da formulação de indagações que levem à descoberta, pela pesquisa, de algo realmente novo. Assim, pode-se desenvolver projetos que envolvam toda comunidadee que sejamfundamentais para a formação de todos. No Brasil, por exemplo, as crianças de Cotia estão desenvolvendo um projeto coletivo para a coleta de lixo da comunidade.

Dessa forma, nas palavras do Professor José Pacheco: “eles aprendem não só a construir projetos de vida como aprendem a construí-los  em comunidade. E com essa proposta de aprendizado acolhedora se tornam seres humanos sábios e felizes.”

Depois de quase três horas de perguntas e depoimentos envolventes, professores saíram de lá com a missão de revolucionar o jeito de trabalhar dentro das escolas. E os pais que vão aderir ao homeschooling, saíram certos de que ali poderim unir mais esforços para formar futuras comunidades de aprendizagem.

Admiro profundamente a coragem desses pais que se juntam para repensar a base da escola e do ensino nos dias de hoje. Admiro profundamente aqueles que reagem a uma realidade sufocante, que amedronta e muitas vezes imobiliza, e resolvem mudar a única coisa que pode transformar o futuro da humanidade: a educação de seus filhos. Deve ser por isto que esse povo, até quando fez revolução, usou nome de flor*.

Obrigada aos amigos do Florescer pelo convite, obrigada professor pelas palavras e pela oportunidade de troca. Não passei pela Escola da Ponte, não estou perto do Projeto Âncora, mas em poucas horas de conversa penso que de alguma forma, também começo a florescer e já saí daquela sala um bocado mais sábia e feliz.

 

*Revolução dos Cravos, ou o 25 de abril, é o nome do movimento que derrubou o regime ditatorial português, que vigorou no país durante mais de 40 anos.

 

Comentários

  1. Bia, eu sempre quis conhecer a Escola da Ponte. Minha tia, que já trocou muitas figurinhas com eles, me conta maravilhas da escola. Adorei saber mais pelo seu post. E que alegria saber que eles estão inciando um projeto em Cotia. beijo e obrigado

  2. Nunca pensei que escola fosse algo tao dificil! Adorei seu post porque é um tipo de educaçao sonhada, mas nunca sei se pratica. E eu nunca soube a raiz quadrada de nada. Nem na epoca da escola! Hahaha

  3. Adorei o seu texto, a palestra, a esperança de que em algum lugar alguém está se movimentando com muita coragem para transformar o mundo aos poucos. Estou embevecida, encantada e desejosa de conversar mais com gente como você e todos os outros que estavam na palestra. Ainda não encontrei a minha turma por aqui…

  4. Simplesmente chorei ao ler… seja por me identificar com a tal criança que não se “enquadra” e sofre com o ensino tradicional, seja por pensar que já há um certo tempo venho sendo chamada a entender melhor as metodologias de educação não tradicionais, mas não tenho me dedicado a isso como deveria… Que coisa mais linda relembrar/ afirmar/ sentir que o saber pode brotar da prática (da vida), através de projetos transdisciplinares, inteligentes e, acima de tudo, humanos. Seu texto me deu vontade de agir!

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