Sumiço

Domingo de Sol. Tarde na piscina. Água gelada. O dia seguia perfeito. Não fosse o pânico de “perder” a Sofia por 30 minutos.

Com seis anos e uma independência incomum, já me acostumei aos seus rompantes no supermercado perto de casa, de onde sai quando estou “demorando” e ruma para a nossa tuc-tuc (bicicleta elétrica com cinco lugares), onde espera sozinha até que eu termine. Ela também costuma sair de casa e ir a pé até a casa de nossos vizinhos de rua dizendo que “vai fugir de casa”.

Em geral, sou bem tranquila. Pequim é uma cidade bastante segura e na nossa região, povoada por estrangeiros, uma criança de cabelos dourados não chama tanta atenção.

Por isso, de início, achei normal quando olhei e ela não estava mais no vestiário. Poderia ter voltado à piscina ou ido para o parquinho. Quem sabe no mercadinho dentro do clube ou na lanchonete? Vai ver foi comprar sorvete ou um suco de maçã. Nada.

Uns cinco minutos esperando e começo a ficar incomodada. Elisa, mais velha e mais ajuizada, está ansiosa para ir para casa ver um filme novo e pega a bicicleta para procurar a irmã fazendo o caminho de casa. Vai ver resolveu ir sozinha. Não acha. Volta e faz o caminho até o parquinho de outra rua e eu começo a entrar de novo na piscina interna, externa, na lanchonete, no mercadinho, nos banheiros e vestiários.

Já se passam 15 minutos e nada. Encontro uns amigos passeando e eles sugerem que eu procure na casa de todos os brasileiros enquanto eles seguem até a nossa casa procurando.

Nada. Já são 20 minutos e começo a ficar preocupada. Elisa percebe e resolve ir pessoalmente a todas as casas de todos os amigos de bicicleta. Duas mães conhecidas veem minha cara de preocupação e resolvem ajudar. Uma delas vai em casa e busca o carro para percorrer o condomínio. Meus amigos ligam e resolvem ajudar procurando de bicicleta. Imagens de meninas nigerianas passam pela minha cabeça junto com manchetes de sequestros de criança.

Com 25 minutos começo a pedir ajuda aos funcionários do clube. O nervosismo é tão grande que em vez de usar minhas poucas palavras em chinês, abordo uma funcionária falando em francês. Me contenho a tempo e resolvo ir a secretaria do clube e explicar o ocorrido a algum funcionário que fale inglês. A mocinha, atenciosa, já passa um rádio para todos os seguranças do condomínio. Blusa listrada branca e rosa, short verde. Havaianas. Seis anos, alta. Falo tudo misturado ao mesmo tempo. Pelo menos falo em inglês.

Aos 30 minutos, resolvo refazer todo o caminho, perguntando a funcionários, com ajuda da mocinha da secretaria. Até que, do fundo do corredor, vejo um serzinho caminhando lentamente, como se nada houvesse.

“SOFIA!! Onde você estava?!?!” “Cansei de esperar vocês e fui pra piscina ver as pessoas nadando no fundo. Fiquei sentada do outro lado do bar pra ver melhor, ué.”

Não consigo falar mais nada. A mocinha se encarrega de dar a bronca por mim. Eu só consigo segurá-la e levá-la até a tuc-tuc.

Começo a avisar os amigos e tento avistar a conhecida que saiu de carro. Elisa chega de bicicleta. “Ai, Sofia! Você não pode fazer isso. A mamãe fica preocupada.”

Chego em casa tentando digerir o que aconteceu. Será que fiquei preocupada à toa? O post da Simone, de algumas semanas atrás falava sobre sua filha, de 12 anos, que queria andar sozinha nas ruas do Rio. Talvez isso tenha ficado no meu subconsciente porque nos próximos dias só fiquei pensando nisso.

Elisa, de 8 anos, anda sozinha pelo condomínio, já vai ao clube encontrar os amigos, vai ao mercadinho pra mim, parte em explorações com sua bicicleta… Daqui a pouco, vai pedir para ir ao Pinnacle Plaza, um mini shopping ao lado do condomínio. Mas, como vai ser quando voltarmos ao Brasil? E a Sofia, que vive no mundo da lua? Quando e onde elas poderão gozar dessa liberdade se voltarmos para nossa antiga casa?

Na idade dela e morando nos EUA, eu andava por todos os cantos. Tinha uma bicicleta e a chave de casa pendurada no pescoço. Meus pais tinham aula. E eu, depois da aula, tinha um bairro inteiro para explorar. Aos 10 anos nos mudamos para um condomínio na Barra da Tijuca. Eu andava pra todo lado sozinha. Aos 12 anos, eu e minhas amigas íamos ao Barra Shopping, recém inaugurado (isso entrega a idade), de ônibus do condomínio. Era o máximo da liberdade, o ônibus entrava dentro do shopping, que, na época não era cheio. Íamos ao cinema, ao Bob’s… Era uma delícia. E hoje? Eu deixaria minha filha ir sozinha com 12 anos? Nem pensar!

Uma amiga em Joinville deixou a filha ir com as amigas ao shopping. Deixou na porta, se despediu, mas deu a volta, estacionou e ficou no shopping seguindo as garotas meio que escondida. Liberdade vigiada é uma boa solução? Afinal, mesmo estando do nosso lado, elas insistem em nos dar sustos que duram 30 minutos.

Comentários

  1. Livia, que situação! 30 minutos é bastante tempo, dá para ficar preocupada, sim. E sabe que o meu Bento, também com 6 anos, também anda dando umas sumidinhas, mais rápidas, mas já fiquei preocupada e olha que estou em Portugal, terra mansa. Também ando pensando tanto nesses excessos que a vida brasileira oferece. Sei lá, difícil pensar na volta.

  2. Livia, fui criada em Realengo, suburbio do Rio, e me lembro que convenci minha irma mais nova que voltássemos caminhando da catequese para usar o dinheiro do ônibus para comprar figurinha. Catequese, quer dizer, isso signfica que eu andava de ônibus sozinha, com nove anos e cuidando da irma menor.! Hoje duvido muito que permitisse meus filhos fazer tal coisa. O mundo é outro mesmo. Mas confio em que as proprias crianças possam conquistar essa confiança. Espero!

  3. Lívia, já passei pela situação de não saber onde estava o Lucca, a escola me deu um endereço para buscá-lo depois de uma atividade extra , e eles levaram ele para outro lugar.E também falei nem sei que língua pedindo ajuda. Ainda bem que me entenderam. No fim deu tudo certo, mas são os minutos mais longos da história os que vem acompanhados de angustia. Eu também voltava da escola com 11 anos de ônibus e metrô em São Paulo acompanhada de minha irmã que tinha 13anos. Em Londres a escola nova não tem pick-up service e não estou digerindo nada bem a sugestão que foi dada, e que é comum por lá:de que as crianças vão e voltam em grupos de ônibus. Ai, ai, ai, isso ainda vai dar pano pra manga. beijo grande

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