Meninos e meninas

Verão passado estávamos com as crianças na piscina e um outro pai, que não conhecíamos, também com um casal de filhos, puxa assunto. Apontando a sua filha, de uns dois anos mais ou menos, comenta:

“_ Essa menina tem o gen maligno!”

Lembrei dessa história sábado passado, porque estava com os meninos no parque que temos na frente de casa e no bate-papo com as outras mães, elas também falavam das suas filhas do seguinte modo:

“_ As meninas são muito mais retorcidas (não encontrei a tradução adequada, então deixo o original mesmo) que os meninos.”

Não foi a primeira vez que ouvi esse adjetivo usado para se referir às meninas – retorcida (difícil, complexa, que sempre vê o lado pior das coisas)-, mas me chamou a atenção que fosse dito por outras mulheres para se referir a suas próprias filhas de seis anos. E fiquei pensando como os clichês sobre homens e mulheres estão tão arraigados no nosso cotidiano que não deveríamos nos surpreender que sigamos vivendo em uma sociedade tão machista.

Por esses pré-conceitos, os meninos são: pessoas simples, sem complicações, fortes fisicamente, ativos, hábeis, levados, mas no fundo bons.

As meninas são: complicadas, difíceis, duas caras, traiçoeiras, mais tranqüilas e inteligentes que os meninos, mas capazes de usar essa inteligência para o ¨mau¨.

Criando um menino e uma menina, espero não repetir com eles nenhum desses preconceitos, totalmente injustos com um e com o outro gênero. Mas é bem difícil. Eles começam na própria gravidez. Na da Carol, me diziam:

“_ Os meninos dão trabalho na infância, as meninas na adolescência.”

Quer dizer, os meninos dão trabalho porque são mais levados, mas quando crescem podem sair à vontade. Os pais não tem que se preocupar. Já as meninas, não podem sair, nem namorar sem o controle dos pais.

“_ Toda menina compete com a sua mãe.”

Isso eu ouvi de um aluno. E fiquei pensando na minha mãe, que criou cinco filhas, que teria enlouquecido se todas nós decidíssemos competir com ela.

E os preconceitos também estão obviamente nos brinquedos. Assunto bastante comentado ultimamente pelos jornais. Mês passado fomos comprar o presente de aniversário da Carol e na enorme loja de brinquedos, nas estantes dedicados aos meninos havia: aviões, carros, carrinhos, caminhões, trens, motos, foguetes, bolas,barcos, armas, espadas, jogos, muitos jogos. Na das meninas havia: bonecas, roupas para bonecas, comidas para bonecas. Nada mais. Até os legos para meninas eram bonecas. Carol adora suas bonecas, mas também gosta dos carrinhos do irmão, andar de moto e de brincar com seu trem. E Hugo, apesar de ignorar todos os bichos de pelúcia, também brinca de casinha com sua irmã.

Claro que entre os dois notamos a diferença de gênero nos seus gostos pessoais. Hugo é apaixonado por qualquer forma de locomoção. Carros, motos, aviões. Essa semana descobriu a existência dos hidroaviões. Um avião que também é barco. Pode existir algo melhor na vida? Já Carol ama sua Hello Kitty. Dorme abraçada com ela todas as noites. Sempre que preciso de um pano de prato, tenho que buscar no quarto dos meninos, pois ela usa de manta para cobrir as bonecas na cama. Mas, por outro lado, Carol gosta muito mais de jogar bola que Hugo. Nacho afirma que com a direita que tem, trará fortuna para a família. Tomara! E como os veículos são tão importantes para o irmão, ela também anda pela rua apontando:

“_ Olha, mamãe, uma moto!”

Então, espero não repetir jamais que minha filha é retorcida por ser menina. Nem que meu filho é simples por ser menino. Que as pessoas são diferentes porque as pessoas são diferentes, não por nascerem em determinado gênero. Nossa, educar está cada vez mais complicado!

 

 

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Meninos e meninas que brincam com tudo. Foto de agosto passado em Búzios.

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