Maternidade pelo mundo: as três coisas que aprendi sendo mãe fora do Brasil

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Para celebrar o primeiro dia das mães do nosso Mães em Rede, pedimos a elas para contarem as três coisas que aprenderam com a maternidade fora do Brasil. Estrangeiras, ciganas ou multipatriadas, para elas o tempo passa de outro jeito, a liberdade é de outra qualidade, a intimidade familiar floresce. Com a palavra, elas:

Rosane Marinho, Espanha

rosane1- Eu não tenho medo. Fora alguma doença rara (toc, toc, toc), não tenho medo da violência, nem de assalto, nem de bala perdida. E não tenho medo de algo bem comum: de que um carro avance o sinal vermelho.

2- aprendi que compartilhar filhos pequenos e vida profissional é muito difícil. Claro, é difícil em todos os lugares, mas ao não contar com ajuda, ao ter que cozinhar todos os dias, por exemplo, é muito complicado manter o mesmo nível de compromisso com o trabalho. Isso explica porque o número de mulheres que querem filhos está diminuindo tanto.

3- aprendi que eu sou estrangeira. Meus filhos não. Isso ainda vai dar para muitas histórias.

 

 

Ana Viviani Bemfica, Itália

ana1- Que quando se tem a alma cigana, se aprende a ser amigo da saudade. Difícil é quando um elemento da trupe é do tipo alma cigana, e os outros são mais do tipo praga: mal chegam num lugar, já criam raízes.

2- Que a vida segue, seja onde for e  em diferentes circunstâncias, ela sempre segue. E que você vai perder momentos importantes da vida de quem fica. Assim como as pessoas vão perder momentos importantes de sua vida. Mas que também todo pequeno encontro é de muito valor e motivo de festa e alegria sempre.

3- Que nós não gostamos, para nada, de sermos considerados expatriados. Não pelo significado “ipsis litteris”, mas pelo que nos remete a palavra. Nunca nos sentimos “ex” nada. Temos nossa uma pátria. Aliás, essa experiência é tão transformadora que, sem querer ser presunçosa, nos sentimos já um pouco multipatriados.

 

Bia Golzi, Portugal

biag– Saúde pública existe: em Portugal, quando o assunto de saúde é sério, o mais recomendável é procurar saúde pública, coisa impensável no Brasil. Você pode não ter o atendimento mais exclusivo, mas o fundamental é que as equipes são bem preparadas e os melhores equipamentos estão nos centros de saúde pública.

2 – Dá para viver em liberdade: poder sair de carro de vidros abertos, deixar seus filhos correndo livres pela calçada, caminhar na rua à noite, mesmo em becos mais escuros ou até esquecer o carrinho de passeio das crianças na beira do rio não são motivos de estresse – logo que Vicente nasceu, no primeiro passeio, amamentei, troquei a fralda, coloquei as crianças dentro do carro e guardei tantas bolsas e só depois vi que o carrinho tinha ficado na calçada. Aqui, mesmo com a crise, o medo da violência e do assalto ainda não bateram na nossa porta (plagiando a Rosane – toc toc toc).

3 – Eles precisam de tempo: desde que virei mãe percebi que os filhos seriam sempre prioridade na minha vida, mas foi aqui, com mais tempo e dedicação quase exclusiva, que vi como eles ainda pequenos precisam estar verdadeiramente perto da mãe ou do pai. É com essa relação cotidiana, verdadeira e também cansativa, que crescemos juntos.

 

Livia Frossard, China

livia1- É possível ser mãe sem ter babá e/ou vovó por perto. É difícil, mas é possível. E isso vai te trazer uma realização, uma sensação de poder tremenda, uma sensação de “acomplishment”. Foi meu maior aprendizado.

2- É possível ter parto normal sem parecer aquelas mulheres que berram no Discovery Channel. Na verdade, é possível ter parto normal. Só isso já é um mito entre as brasileiras…

3- Nos lugares em que ter empregada é raro, o comércio te ajuda. Explico: os produtos de limpeza são feitos para vc não ter q passar vassoura, pano, enceradeira, aspirador… Além disso, a comida congelada é ótima e há opções saudáveis. Os restaurantes entregam e há muitas opções para crianças. Aliás, as crianças aprendem a não ter que comer arroz e feijão todo dia e são expostos a alimentos diferentes. Por exemplo, minhas filhas comem sushi e queijo brie desde pequenas.

 

Bia Dale, Emirados Árabes

 biad1- Criar filho fora é criar filho dentro.

Porque quando a gente está longe é que fica perto.

É que o tempo se move diferente e escolhe passar de outra forma, e um chope com os amigos vira pizza com as crianças. Nesse tempo a gente vê todos os machucados feitos na escola, sabe que brinquedos são os preferidos e a vida passa em páginas que seguem a mesma cadência. O ritmo da rotina, que se vive quase igual, sem pressa, crescendo… crescendo…crescendo…

2- Criar filho fora é ter uma casa muito engraçada, um tanto bagunçada, inacabada, mas aconchegada. Uma casa generosa, que mesmo desse jeito, nos mostra sempre onde está aquela calça preta e sabe exatamente onde está o batman de capa azul…Porque somos nós a bagunçar, arrumar, guardar e bagunçar, arrumar, guardar…

3- Criar filho fora é estar livre para fazer as coisas ao seu modo. É decidir segura, que uma atividade extra, uma vez por semana é suficiente para que ele volte pra casa e possa ser criança a tarde inteira nos outros quatro dias. Ser mãe fora do Brasil fortalece os laços, abre as perspectivas e muda as prioridades. Muda o “dentro”.

 

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