Entre Bolas e Bolinhas.

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O time de Lucca na final do Torneio de Garda, em que  conquistaram o  terceiro lugar.

 

Sou a única mulher da espécie humana em casa. Rodeada de bolas. Calma, não tem nenhum outro sentido, além do literal, no que  acabo de dizer. Você vai me entender.

Veja bem, fim de semana, na TV não tenho chance para nada: é Liga Espanhola, Liga Italiana, Liga Inglesa, Champions League, sem falar do Campeonato Brasileiro. No tênis é um máster disso e daquilo outro, Roland Garros para lá, Wimbledon para cá. Um atrás do outro.

A coisa chega a ser tão grave que nossos programas noturnos, até na companhia dos amigos, são regidos pelo horário das partidas. Tem até jantar temático para assistir jogo. E se o jantar não terminar até começar a partida, toca os homens levarem os pratos na mão para a frente da TV. Mas, não é o que eles mais gostam de fazer, porque, vai que, exatamente naquele momento sai um gol… Como se comemora?

Tem ainda  a questão  do efeito prolongado da empolgação. Explico:  depois de um jogo emocionante, sempre tem uma bola rolando dentro de casa, ou, dependendo do esporte,  a bolinha batendo, por horas, na parede. Afinal, tudo que foi aprendido assistindo a partida, tem que ser praticado imediatamente, que é para garantir a  fixação do conhecimento adquirido.

Em alguns momentos me sinto um peixe fora d’água. Pelo menos para a minha geração, acredito  que esse papo dos esportes envolvendo bolinhas não é parte do currículo da formação feminina. E, especificamente comigo, o interesse tampouco veio naturalmente. Tive que aprender, na marra, se quisesse ter assunto com alguém aqui em casa.  E isso requer um esforço. Mas descobri que não estou sozinha. Temos uma amiga que acompanha seu filho no futebol, como eu.  Outro dia assistindo uma  partida  de nossos filhos , soltou a seguinte frase: “Nossa como nossos meninos estão crescendo. Aquele ali, por exemplo, olha como é grande”. Ao que seu marido responde… “Querida, aquele ali é o juiz.”

Apesar de tudo,  tenho que admitir que as bolas e bolinhas foram elos fundamentais na adaptação de toda a nossa família, tanto na Espanha quanto na Itália.

Quando nos mudamos para a Espanha, Lucca não era um inciado no assunto. Mas, na escola todos os amiguinhos adoravam futebol. Nos intervalos só jogavam futebol. Até o dia que ele chegou em casa com o olho roxo. A criançada jogava tão mal, que ele e um amigo coreano se encontraram:  foi o cotovelo de um , no olho do outro. Hora de intervir. Começou a treinar futebol na escola, duas vezes por semana depois da aula. Decisão que mudou nossas vidas. A partir dali todos os sábados Lucca tinha campeonatos, amistosos, e afins. Haja amor, para no inverno acordar sábado de manhã às 8 horas, com menos 4 graus lá fora, e ficar parado por ao menos uma hora vendo a meninada jogar. E torcendo! Mas sabe o que é engraçado? A gente acaba gostando, porque a prática de   esporte de Lucca também se mostrou um potente campo de integração para nós. Acompanhando Lucca nos eventos esportivos conhecemos muita gente diferente, qua nunca teríamos a chance de cruzar se não fosse ali. E fizemos muitos amigos.

Ainda, posso elencar muitos benefícios da prática do esporte coletivo para um filho único, como: aprender a respeitar seu limite e o limite dos outros; aprender a trabalhar em equipe; se integrar com mais facilidade a uma realidade diferente, e de uma maneira lúdica;  exercitar freqüentemente  o estabelecimento de metas e objetivos; aprender a viver uma vida mais saudável; vivenciar as frustrações; entre tantos outros.

Na mudança de Madrid para Milão, e já que o futebol e o tênis tinham  entrado de verdade  na vida de Lucca, resolvemos colocá-lo em  clubes em que  ele pudesse, de fato, se desenvolver mais. Ele hoje treina futebol  em um clube renomado de Milão.  Também faz tênis, e tem até a carteirinha a Federação Italiana de Tênis.

Difícil é administrar a agenda quando tem torneio de tênis junto com futebol.

Semana passada fomos acompanhar Lucca em um torneio de seu  time de futebol em Garda. Lucca foi um dia antes sozinho, junto com todo seu time. A primeira partida de sua equipe seria às 10h da manhã na sexta-feira. Eu e Miguel saímos de Milão às oito da manhã, debaixo de uma chuva torrencial. Por causa da chuva, chegamos atrasados no campo . Fazia 12 graus e  estava tudo encharcado: campo, meninos, pais, tudo. O jogo já estava 1×0 para o time adversário . A equipe de Lucca estava tensa, o jogo estava duro. O adversário, no dia anterior, havia vencido de uma outra equipe  com o assustador placar de  18 x 0. Muita pressão, muito tombo na lama, empurrões, carrinhos, meninos no chão, molhados, enlameados. Quase dez minutos depois de nossa chegada, em um dos lances, a bola vem cruzada para Lucca, perto da área, Lucca se adianta ao zagueiro, e toca por debaixo das pernas do goleiro. É gol! GOOOOOOOOOLLLLLLLLL!!!!!!! 1×1 .

E é numa hora dessas, quando você vê a alegria de seu filho e de todo o restante do time se abraçando debaixo da chuva, enquanto os pais com seus guarda-chuvas  saltam na arquibancada, que eu me  lembro de Fernando Pessoa, porque tudo vale a pena. Realmente tudo.

Comentários

  1. que momentos maravilhosos…. eu vivo tudo isso com o Gabi meu filho e sei muito bem a emoçao de uma maezona torcendo para o filho! viva nossos guris esportistas!!
    Adoro ler todos seus textos!!!
    bjs em vcs!

    • Fabi querida, vi uma foto outro dia de vc e Clara torcendo pro Gabi, que já tá um meninão. Tão lindos! Deu muita saudade. Fico muito feliz de saber que você curte meus textos. beijo enorme nos 4 e saudades.

    • Muito fofa Luiza! E se posso te dar uma dica é prepare e aproveite pra se emocionar muito, porque em cada fase é como uma Disneylandia de emoções! beijo

  2. Pois é. E tem aquela história deste avô coruja que foi fazer um vídeo dos lances importantes do jogo e, na hora em que o neto (Lucca) fez o gol pro seu time, filmou o céu e as nuvens!!!! Lembra?
    Saudades e beijos pra todos

    • Claro que lembro, essa tá registrada. Só se escuta o grito e se vê o céu e depois o chão. kkkkkk!É muita emoção pra ainda ter que coordenar foto e filme, não se exija tanto voinho! beijo saudoso estalado.

  3. Ana, hoje foi você que alegrou a minha noite. ADOREI. Ripa na xulipa. Os meus varões aqui adoram o Mengão, mas ainda não entrei nessa fase de correr para o campo e torcer. Hoje me senti por lá lendo seu texto. Golaço. Beijos

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