Entre anjos e lagartas

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Meu querido filho Bento,

gostaria que um dia pudesse ler essa bonita história sobre você e o seu crescimento. Ela me lembrou das dores de crescimento que também tive quando era criança, e da minha saudosa avó dizendo à minha mãe: – Dagmar, essa menina não tem nada grave. São dores de crescimento. Para mim também não foi fácil crescer. E espero que com o que registro nessa carta, independente das voltas que a vida der, você possa ter guardada a dimensão da sua sensibilidade. E mesmo que a vida te embruteça um tantinho, e isso é quase inevitável, que saiba sempre que na sua essência mora o tesouro da reflexão.   

Sábado passado sentamos cedo à mesa do café: você, Vicente e eu. Ouvíamos os passarinhos cantandoe íamos acordando aos poucos, quando você quebrou o silêncio:

– Mãe, quando é que você vai virar estrelinha?

Eu já sabia que esse tema andava pela sua cabeça e continuei a conversa dizendo que ainda deveria demorar muito, que sou jovem, que adoro estar aqui na terra ao lado de vocês, que quero ver os dois crescerem e aprender muitas coisas ao lado dos meus filhos. E você completou:

– E quando você parar de adorar estar aqui na terra vai morrer, é isso?

Nesse momento vi os olhos do pequeno Vicente ficarem enormes e emendei logo, explicando que não era assim. Que o fim da vida não significa que tenhamos deixado de gostar de estar perto de quem a gente ama. Isso não acontece. A gente é como as plantas: nasce, cresce, vive e tenta fazer uma vida bem bonita, depois morre. E complementei que gosto de pensar que viemos das estrelas e voltamos às estrelas, onde ninguém mais consegue nos alcançar, mas seguimos brilhando, com jeito de sonho bom.

Esse assunto ainda continuou durante dias:

– Mãe, posso virar estrelinha só depois do papai?

– E você acha que o vovô Sérgio, a bisa do Carmo e os meus compositores prediletos se encontraram no céu? Ela tocava piano, não tocava?

– O Vinícius (de Moraes), o Tom (Jobim), o Gonzaguinha e o Bob Marley, eles já eram velhinhos quando morreram? Todos os músicos que a gente gosta, vão virar estrelinha?

Pensei em suspender a música dos que se foram quando você estivesse por perto, mas depois percebi que isso era uma imensa besteira. No mundo concreto o assunto morte não é fácil para nenhum adulto e não deve ser pauta para uma criança. Só que isto andava te rondando. Era preciso cuidar, encarar o assunto de alguma forma para que o tema não virasse literalmente um fantasma. Aprendi aqui em Portugal que só morre quem nunca foi amado. Então vamos cuidar disso com muito amor.

Parti para os estudos e vi que é natural que a criança perto dos 5 ou 6 anos comece a ter medo da morte. Felizmente você parecia mais curioso do que temeroso. Também li que temos que ter cuidado para não usar termos como “virar estrelinha” já que uma criança pode querer pular para alcançar alguma estrela. Mas já falamos sobre isso e sei que você entende bem a diferença entre imaginação e realidade. E, por último, o grande conselho da literatura psicológica: explique para a criança a visão mais próxima da sua religião.

De verdade essas explanações não me ajudaram muito. Me tornei uma adulta ávida pelo assunto da filosofia e espiritualidade. Mas, apesar de tantas buscas, e tantas referências que me encantam, não consigo concluir o tema. Sou católica de batismo, já frequentei sessão espírita, tomei passe, fiz curso de filosofia taoísta, adoro um templo budista, faço Reiki, leio sobre hinduísmo, sufismo e acendo velas para os nossos antepassados. Mas esse é um outro assunto. Sobre a morte, sigo falando sobre as estrelas. Gosto de olhar para o céu e pensar nas boas pessoas e nas boas histórias que cintilam sobre as nossas cabeças.

Mas sei que essa ideia das estrelas não basta para resolver ou, pelo menos, acalmar esta questão dentro de você. Saí de casa para pegar o Vicente na creche e resolvi conversar com a nossa querida Eva (professora Waldorf do seu irmão). Perguntei como a antroposofia abordava a questão da morte com os ‘mais crescidos’ e ela me lembrou da fábula que contam nas festas de aniversário, que é mais ou menos assim: “o menino brincava com seu anjo no céu e, ao tentar resgatar seu brinquedo que havia caído, chega à porta do céu e avista uma família por quem se afeiçoa e um arco colorido por várias cores que liga o céu à terra. Ele quer escorregar no arco-íris e descer, e chama seu anjo para acompanha-lo. O anjo então avisa: – a partir daqui você faz o seu caminho sozinho, quando voltar estarei aqui à sua espera.” Eva também me lembrou da história da lagarta que morre para renascer borboleta. Saí de lá com boas reflexões e ideias para trabalhar o tema de forma sutil.

Como ninguém fazia aniversário naquela noite, contei para você e seu irmão a história do aniversário do Esperanto, um personagem que criamos juntos em nossas incontáveis histórias noturnas. Você gostou de ouvir sobre a festa e ficou quieto na hora da história do anjo. Vicente adorou o escorrega com cores de arco-íris e foram dormir tranquilos. Mas eu continuei pensando em você. No seu processo de amadurecimento, em como tem sido cobrado para ser quase um executivo mirim, em como tem que se esforçar para estar à altura de um menino que vai entrar na escola primária. Porque como você quer ir para a primária, você se cobra, se concentra, repete exercícios, tarefas, desenhos e, às vezes, parece muito cansado. Mas está determinado. Se deu conta de que só você poderá fazer isso. Sei que começa a perceber que esse é um caminho que é muito seu e que agora é hora de encarar o desafio dos primeiros passos para a sua autonomia. Conversamos muito e você quer que as suas mãos estejam prontas para aprender a formar as letras, para vestir e despir sem nenhuma ajuda, e você tem feito por isso. Só que para alguns essa metamorfose é mais fácil, para outros nem tanto. Hoje o mundo exige muito da gente logo cedo. As crianças têm que caber nas mesmas caixas. Por conta disso já errei muito, mas espero que me compreenda e sobretudo não se cobre tanto. Ou, menos ainda, não desista. Vamos todos respeitar o seu tempo. Logo mais seus pés estarão mais assentados na terra, suas mãos mais firmes para resolver os mínimos detalhes que o cotidiano exige de nós. Talvez você tenha sempre uma letra feia, como a sua mãe, mas isso não te impedirá de, como a lagarta, renascer mil vezes nessa vida.

No dia seguinte chegamos em casa exaustos. Você com os exercícios e eu de te ver ali, se esforçando tanto. À noite, ainda pensando nas novas ideias que fervilhavam na sua cabecinha, resolvi contar a história das lagartas que habitavam as amoreiras do vovô Tito, o vovô dos meninos Esperanto e Compaulo.

“Um dia os meninos chegaram à casa do vovô, correram para a árvore e as lagartas tinham sumido. Estavam dentro do casulo. Vovô explicou que as lagartas tinham comido muito, iam dormir dias dentro do casulo e, nesse processo, lá quietinhas, pouco a pouco se transformariam em borboletas. Esperanto queria abrir o casulo, começou a apertá-lo e o sábio avô perguntou: você quer vê-las voar? Sim, vovô, eu quero. Então saiba esperar. Se abrir este casulo e as asas não estiverem prontas, a lagarta nunca se transformará em uma borboleta. E o menino Esperanto, muito decepcionado, voltou para casa refletindo sobre essa coisa de saber esperar. No final de semana os dois irmãos foram dormir na casa do avô. Logo cedo correram para a árvore e começaram a ver uma coisa estranha, colorida, surgindo dos casulos. Eram apenas duas borboletas, mas eles viram, pois elas realmente saiam de lá voando. As outras ainda não estavam prontas, mas certamente um dia estariam.”.

É meu filho, você ainda não sabe, e eu também não sabia, mas o processo de transformação da lagarta é lento e antes dele acontecer ela se digere por completo. E o principal é que nem todas o fazem ao mesmo tempo.

Hoje você já estava pronto para ir à escola, vestiu a roupa toda sozinho e me pediu alguma ajuda para calçar os duros sapatos de couro. Foi quando me olhou e disse:

-Um dia eu também vou virar estrelinha. Mas vai demorar muito.

– Vai sim, meu filho. Claro que vai demorar. Você ainda tem tempo para fazer muuuuita coisa boa nessa vida.

– Brincar no parque, mergulhar, ouvir música, não é?

E Vicente, sempre atento ao que você diz, gritou da outra sala, onde ainda comia seu pão:

– Andar de avião né, Bento? Pra viajar, que a gente adora.

Bento concordou:

– É, Vicente, viajar para o Brasil, para a Itália, para a França. Aprender a fazer as letras, ler histórias, escrever histórias, ver filmes, fazer músicas.

E assim, digerindo as fases da vida, você saiu para a escola com o seu pai e seu irmão. E eu fiquei quietinha no nosso casulo, meditando e tentando visualizar o processo de digestão da nossa próxima metamorfose.

 

Comentários

  1. Que beleza esse texto, Bia!
    Nesses tempos de intolerância globalizada e de linchamentos por todos os lados, em que a violência afeta nossa sensibilidade nos gestos mais banais do cotidiano, é muito bom partilhar essa dimensão humana das pessoas. No caso, de uma norinha muito especial.

  2. Bia, minha querida borboleta
    Estou aqui procurando por entre as amoras do peito, umas lagartas que somem. Outras que criaram asas e voaram para amoreiras, às vezes distantes e que me fazem perder a possibilidade de verificar que as asas têm cores diversas e desenhos mágicos.
    Penso em pequenos brilhos de estrela que ocupam minha cabeça, minhas distancias, meus alheamentos.
    Penso, também, na vida presente e nos prazeres, que a cada dia nos fazem ver sentido na quotidiana necessidade de nos renovarmos.
    Penso em delicadezas de casulos, penso em maciez de sentimentos que podemos usufruir independente das distâncias que poderão forçar as asas até a próxima amoreira.
    Querida, sim minha querida e especial Bia, diria tanto mais, mas meu silêncio de lagarta de hoje, me obriga a deitar quieto por entre os espaços possíveis do meu casulo magro.
    Lindo observar, como só pequenas e distantes estrelas sabem fazer, o crescer, a delicadeza e a doçura do Bento, permeado através das suas palavras tão corretas, costuradas, ponto-a-ponto e com a mesma delicadeza de asas, de alguém que tece a vida.
    O que mais dizer sobre a emoção de me ver sentado a beira da sua amoreira de agora?
    O que dizer das pequenas asas, dos pequenos desejos, dos inquestionáveis brilhos que os olhos sabem ter ao refletirem estrelas, das pequenas e certeiras exigências que o exercício de crescer nos obriga a ajustar nos casulos da vez?
    Só me resta dizer que – sempre – acreditei na qualidade do seu casulo, nos fios macios da sua seda de ternuras, na certeza das suas asas e no silêncio do seu olhar falante, lindo!
    Que sorte tem o Bento e o Vicente em poder contar com suas delicadezas, quer em letras, quer em gestos e olhares.
    Que sorte tenho eu, também, em poder usufruir deste sentimento infindo.
    Fica a possibilidade do beijo e a certeza de que em asas de borboletas possíveis, eles voarão até você levando um pouco de brilho de pó de estrela para seu rosto lindo e brilhante.
    Obrigado pela emoção dividida!
    Lindo texto, linda história, linda vida, lindas asas.
    Linda, você!

  3. Sabe por que você é a “minha Bião?” Porque você é maior do que você em si e não tem fronteiras. Entendeu a sua imensidão…

  4. Coisa mais linda Bia! Sensível, profundo e delicado. Do jeitinho que imagino que você é. beijo grande e outra vez obrigado por dividir.

  5. Querida Bia, que maravilhoso momento acaba de me proporcionar! As suas palavras levaram-me à emoção e deixaram-me a pairar sobre esta realidade alucinante que nos envolve diariamente, o que me permitiu voar para sentir e saborear, outra vez, aqueles momentos especiais que a vida nos proporciona, que parecem esquecidos mas que teimam em espreitar, marcando a nossa forma de ser e estar! Muito obrigada pela partilha de tão bonitas histórias, dos episódios da vossa vida familiar e obrigada por ter permitido que os nossos caminhos se cruzassem. Que bom o Bento (e também o Vicente!) poder ler as suas palavras um dia. Que felicidade a do Bento poder partilhar a vida com uma mãe Bia, um pai João e um mano Vicente que, na singularidade de cada um, compreendem a plenitude do seu ser. Um abraço com muita estima e consideração

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