Barraco

Que vivemos tempos intolerantes, todo mundo sabe. Basta uma olhada rápida em qualquer jornal para ficar apavorada. Mas antes de ter filhos, nunca imaginei que as crianças também sofressem com esse tipo de problema.

Conto isso porque, desde que nasceu Carol, essa semana tivemos por segunda vez um vizinho reclamando que ela chora. Pois é, caro vizinho, criança pequena chora. Nem sempre, mas chora. A primeira vez foi quando ela tinha um aninho mais ou menos e lhe saíram quatro dentes ao mesmo tempo. Ela acordava de madrugada por causa da dor e chorava durante umas duas horas. Eu e o pai nos revezávamos, tentando acalmá-la. O que melhor resultado dava era ficar na janela vendo a gatos imaginários que saltavam de uma árvore para outra. Ficávamos contando os pulos dos gatos até ela dormir outra vez. Foram três noites assim. Nas duas primeiras, o vizinho se limitava a socar as paredes, na terceira, às três da manhã, toca nossa campainha. Não abrimos a porta, porque se abro, o barraco estaria montado.

Passada a etapa dos dentes, Carol voltou a dormir toda a noite. Temos essa sorte: desde os três meses, ela não acorda de madrugada, salvo se está mal. Não é uma menina chorona, longe disso. Quando nasceu, ficou dez dias sem chorar. Eu estava preocupadíssima! Quando tinha fome, se comunicava com um Ham, Ham. Mas quando chorou por primeira vez, foi inesquecível! As paredes retumbaram! Tem uma voz potentíssima, um futuro assegurado na ópera rock. Mas como disse, felizmente, chora pouco e dorme muito.

Essa semana, por primeira vez, Carol pegou uma virose. Desde a madrugada de sábado com febre alta. Quarta de manha, Nacho leva Hugo ao colégio e eu tento vestir-la para irmos ao pediatra. Ela não quer e começa o escândalo. Eram às 9h da manha e a campainha toca. Dessa vez abri:

¨_ Que es esto?”_ perguntou o vizinho de baixo.

“_Una niña de dos años enferma, imbécil”_ gritei e bati a porta.

Tinha tempo que não rodava a baihana. Foi um alívio.

Minha irmã mais nova, que vive no sul da França e tem um menino de seis anos e outro de quase cinco, também teve problemas com um vizinho. Que as crianças faziam muito barulho ao brincar. As reclamações foram tantas, que eles mudaram de apartamento. Minha pergunta é: que sociedade é essa em que vivemos que não  pode tolerar que uma criança chore ou brinque dentro de sua própria casa? Não estou falando de crianças insuportáveis, dessas super choronas e levadas. Não, crianças comuns, que brincam e choram como qualquer outra. Que individualismo é esse que se está construindo que não se permite ter um mínimo de solidaderiedade com um vizinho? Adultos que se comportam como adolescentes mimados que não podem ser molestados no seu mundinho.

Claro que com os pequenos, adaptamos nossos hábitos e não freqüentamos os mesmos lugares que antes, justamente porque sabemos que podemos incomodar a outras pessoas. Como por exemplo, os restaurantes. Vamos educando os meninos para que falem baixo, não gritem, etc, mas também não podemos impedir que sejam crianças. Muito pelo contrario. Queremos que sejam crianças! Então só nos resta levantar a bandeira branca e pedir mais paz e amor a todos. E de vez em quando, dar uma boa rodada de baihana, que com esse vizinho imagino que não teremos mais problemas.

Comentários

  1. Rosane, você tem toda razão. É muito preocupante essa intolerância globalizada! Cachorro até pode, mas crianças… No Brasil a coisa chegou a níveis de barbárie medieval com a recente morte a pauladas, chutes e socos de uma mulher em Guarujá, acusada indevidamente de um sequestro de crianças que ela nunca fez! Deixou duas filhinhas órfãs. É muito, mas muito preocupante. O mundo tem que se repensar com urgência. Ou voltaremos aos tempos em que se queimava bruxas em fogueiras.
    Bia, minha nora que também escreve aqui neste blog, tem uma vizinhança justo o contrário desse imbecil que você comenta em seu artigo. Levante as mãos para o céu, não é Bia? Um beijo e é muito bom que vocês estejam criando pessoinhas melhores do que essas acima citadas. Graça

  2. Rosane, minha sogra tem toda razão, meus vizinhos são incríveis e também têm crianças pequenas. Nos entendemos bem. Mas sobre rodar a bahiana, confesso que eu sou super tranquila, raramente perco a paciência com as pessoas, mas depois que tive filhos, já me vi fazendo isso umas duas ou três vezes. E sabe o que eu aprendi? Tem gente que só respeita o outro que roda mesmo a bahiana. Não tem jeito, nem todo mundo funciona na base do respeito e tolerância. Agora, cá para nós, te respeito cada dia mais. Mesmo cansada, com Carol ruinzinha você não perde o ritmo do bom texto. Quando crescer quero ser como você. Beijos e um lindo dia das mães brazuca na terra dos touros.

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