A próxima parada.

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O texto a seguir foi escrito há algum tempo. Ele  veio com a emoção daquele momento. E  como tudo o que é vivo, estava esperando a hora certa para sair.

Aí está. Aí vamos nós.

Ischia, 25 de abril de 2014.

É, estamos novamente em processo de mudança.

Não, não estamos preparados para isso.

Sentimos como se  interrompesse algo que ainda gostaríamos e teríamos muito a viver. Fica  até difícil contar … para muitos amigos ainda não tivemos coragem de dizer.

Lucca levou 3  semanas para dividir com seus colegas de classe. Toda segunda-feira colocava na caixinha de mensagens, uma que eles abrem no final da semana, e lêem para toda classe. No meio da semana, ele resolvia tirar. Chegava em casa, e me dizia que tinha resolvido não contar. Cada vez com uma desculpa. “Filho fale só quando você se sentir preparado. E se essa hora não chegar, não tem problema. A gente dá outro jeito. Mas acho que seus colegas gostariam de saber por você.”

Eu tenho tido processos “diferentes”. À minha querida amiga, que mora em nosso prédio, fiquei também ensaiando. Nunca achava a hora certa.  Um dia a encontrei na garagem, e quase depois do “Oi tudo bem? ” saiu… “vamos embora”, seguido da sua cara de espanto, e de meus olhos cheios d’água.  Se segura! À outra querida amiga, chamei para um passeio, crente que estava tudo sob controle. Depois de quase uma hora com ela, enrolando, enredando, tomando ar, nada. Não saía. E o tic-tac do relógio anunciava que estava na hora de ir embora.  Então ela me perguntou: “quais os planos para o próximo mês?” Ufa, era a chance. Agora ou nunca. Eu, que já estava engasgada disse, sem pestanejar:  “fazendo minha mudança”. Se segura de novo! E ainda falta muita gente querida.

Socorro, alguém me ajude! Eu não agüento essa parte. Pode soar exagero, mas  por mais que me digam que alguém sabe se despedir em paz, não consigo entender, como? E se alguém sabe mesmo, por favor me ensine.

Ontem recebemos a notícia de que a casa que vínhamos negociando em nossa próxima parada , finalmente, depois de muitas idas e vindas, aceitou nossa proposta. Foram quase dois  longos meses de busca, antes mesmo do dia começar, todos os dias, pelo menos uma hora, nos sites de imóveis. Miguel visitou mais de 20 casas por lá. Foram  muitos conflitos e negociaçōes familiares. Presenciais e à distância. Até que conseguimos uma casa, com quase tudo que estávamos procurando. Motivo de alegria e comemoração?Impressionantemente não. Ao contrário, nenhum de nós  conseguiu celebrar ontem.

Hoje acordei  triste, angustiada, fazendo mentalmente a lista de coisas que terei que fazer nas pouco mais de  5 semanas, quando sai nossa mudança.  Sei que isso é uma fuga, e me mantém ocupada, para dispersar a atenção da tristeza que tem por traz. Fechar a negociação da casa foi quase como  a sentença definitiva. Agora não tem escapatória. “É finita la música.”

A itália também não é fácil de se despedir. Resolvemos aproveitar as férias de Páscoa de Lucca para conhecer lugares que ainda não tínhamos estado por aqui. Imagina? E além de toda a beleza e gostosura desse país, que aprendemos a amar, fomos encontrando alguns amigos Italianos pelo caminho. Sabe aquele restaurante, que você nunca saberia que existe? Ali naquela marina da cidade que o pai de um amigo tem uma casa de campo , nas colinas da Toscana com vista para o mar ? Pois bem, almoçamos com nossos amigos, numa mesa farta de alegria só por estarmos juntos. Pais e filhos.  Pouco? E conhecer Nápoles na companhia de outros  amigos, nativos da cidade? Daqueles que dizem… “se quiserem a gente vai na pizzaria  mais famosa de Nápoles… Ou minha mãe cozinha pra gente”.

Muito difícil.

Mas, a realidade chama. A negociação da casa nova fechou…

( silêncio…)

Cara nova cidade,

Espero te encontrar bem.

Se não for pedir muito, no começo um pouco de sol pode ajudar. Te dou um tempo, só chegaremos em julho, quando geralmente o clima é melhor por essas bandas.

Sei que muita coisa  aí é diferente de tudo que já vivemos até agora. E acho que teremos que ter muita paciência no começo, uma com a outra. Tenho muito que aprender. Não me leve a mal, entenda que chegaremos sensíveis, e por favor, seja gentil conosco. Não esqueça, venho de um outro sonho muito feliz de cidade.

A relação que vamos construir depende das duas partes.

Sei que você vai ser muito estimulante. E quero que saiba que vou de peito aberto, apesar  do coração apertado.

Espero muito em breve dizer seu nome, como o de  mais uma cidade que escolhemos para chamar de nossa: Londres.

Seja bem-vinda em nossas vidas.

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