Zaragoza

Na margem do rio Ebro, a Catedral del Pilar preside a cidade.

Na margem do rio Ebro, a Catedral del Pilar preside a cidade.

Sempre digo que uma das boas coisas de morar em Zaragoza é que aqui só nos visita quem  realmente quer ver-nos. Aqui não vem o amigo do vizinho, nem aquele conhecido que tomou uma cerveja comigo no Posto 9 há dez anos atrás e que descobre de repente que morre de saudades da minha pessoa. Coisa que certamente passaria se nossa moradia estivesse em Barcelona ou Madrid. Teria que aprender a dizer não, coisa sempre difícil para uma brasileira, principalmente para uma filha de nordestinos. (Uma das coisas que mais admiro nos espanhóis é sua facilidade para dizer simplesmente não. Sem culpa, simples e direto. Que beleza!). Zaragoza não está no imaginário do turista brasileiro. O que é uma pena porque, embora não tenha a beleza de outras cidades espanholas, aqui a gente descobre o verdadeiro significado do que é ter qualidade de vida.

Quando Cabral avistou terras brasileiras por primeira vez em 1500, a cidade de Zaragoza já tinha 1800 anos de história. Cifra que sempre me impressiona. Foi fundada por romanos no século III a.C. como Caesar Augusta. A cidade mudou de nome com o domínio árabe, que eram incapazes de pronunciar o nome do imperador romano. Então aqui tem o típico para visitar: teatro romano, muralhas, mesquita que virou catedral, termas, palácio árabe que virou palácio dos reis católicos, etc. E poderia ter muito mais para mostrar se a cidade nao tivesse passado um ano sitiada pelas das tropas de Napoleão, no século XVII. Sítio que custou a vida a mais de um 70% da população da região e que jogou a cidade, nesse momento a segunda mais importante da Espanha, outra vez na Idade Média. Histórias de guerras e conquistas que para mim parecem cenários reais de Jogos de Trono.

Mas o turista que passa rápido pode não ficar muito impressionado. Zaragoza não tem a beleza de San Sebastian, a elegância de Barcelona, a monumentalidade de Madri, nem a alegria de Granada e Sevilha. Tem um pouco de cada uma delas, mas com discrição, sem muito alarde, que isso aqui não pega bem. O caráter do aragonês é de gente dura, acostumada a passar muito frio no inverno e muito calor no verão, mas generosa, que recebe bem, que jamais permite ao visitante pagar qualquer conta, que é famosa por sua teimosia e tenacidade, que gosta da mesa farta, mas também pessimista, que tem um sentimento trágico que sempre pensa que pode fazer mais frio, mais calor e que o Real Zaragoza, embora esteja ganhando de 3 a 0, faltando dois minutos para o final, pode perder, porque “a nosotros, todo nos pasa”.

Pois é essa a cidade que me adotou e que me deu uma nova certidão de nascimento onde põe que sou de aqui. A ela lhe devo uma outra forma de ver o mundo: mais tranquila, mais solidaria, esse sentimento de pertencer a uma comunidade, em que se é público significa que é de todos e deve ser cuidado. E também o orgulho provinciano por qualquer coisa que seja da “nossa” terra. Bem, isso na verdade eu já conhecia do Rio de Janeiro, mas claro, se é do Rio, é obviamente melhor, não é uma questão de opinião. Desculpa, não resisti! Hahahaha!

Esse texto é uma homenagem a minha querida amiga Patricia Abreu, que enfrentou o pânico a voar e veio aqui nos ver essa semana. E a todos os outros que já passaram por aqui e que nos deram o privilégio de muitas madrugadas de risadas. Para quem mora fora é o maior presente que podemos receber é justamente esse: receber a quem amamos.

 

Comentários

  1. Rosane, aqui em casa, a gente dizia o mesmo a respeito de Joinville e São Paulo. Qdo estávamos escolhendo para onde ir na época do MBA, meu marido tinha a escolha de ir para a França, a costa leste americana e São Francisco. Daí, um amigo do meu marido falou: “André, se vc escolher qq um desses lugares, tenha certeza que nunca estará sozinho. Sempre vai ter visita. Mas, se vc for morar em São Paulo ou qq outro lugar assim, ninguém vai.” E assim foi. Tínhamos muitos visitantes qdo moramos em berkeley e até no apartamentinho de Paris. Já em São Paulo e Joinville… quase nada

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