Toureiros, tanques e janelas

Fogão e maquina de lavar roupa convivendo lado a lado na cozinha.

Fogão e maquina de lavar roupa convivendo lado a lado na cozinha.

Na Espanha, o dia de azar é a terça-feira 13 (!!). O dia da mentira é 28 de dezembro e não o 1º de abril. Aqui, quando em um dia se celebra algum santo, a tradição manda que você telefone para a pessoa que tenha o nome desse santo e lhe felicite. Tipo: no dia de São José, você deve mandar uma mensagem para todos teus amigos Josés e amigas Marias Josés e dizer:

“_ Felicidades por teu santo!”

Estranho, não? Quando mudamos de país passamos outra vez a ser analfabetos. Não por apenas intuir a língua, mas por não conhecer os códigos de convivência. Os estranhementos são muitos e mesmo depois de quase dez anos no outro país ainda continuo me confrontando com eles. Embora com alguns já tenha me acostumado tanto, estão tao incorporados, que só quando recebo visitas brasileiras me lembro que não são códigos universais. E essa é a parte boa: aprender que realmente o “normal” não existe.

Mais exemplos: os apartamentos aqui não têm tanque. A cozinha e o banheiro não têm ralo.

A cara de espanto que minha mãe fez, ao descobrir que não podia lavar o sapato no tanque porque ele não existe, foi mais que engraçada, era de uma pessoa totalmente indignada:

“_ Então por que dizem que aqui é primeiro mundo?!”

Também a minha cara quando perguntei a Nacho:

“_E como lavamos o banheiro?”

“_Com muito menos água que vocês usam.¨ Respondeu ele categórico.

Enfim, aprendemos que tudo que podemos, lavamos na máquina de lavar e o que não podemos, usamos o bidê (pelo menos temos bidê!). Banheiro e cozinha com esfregão e muita agua sanitária.

Mas os códigos de convivência estão por todas as partes e para mim uma grande fonte de aprendizado eram os programas de famosos da televisão. Nacho ficava maluco!

“_Quem é esse?”

“_Um toureiro.”

“_E essa?”

“_Mulher de toreiro.”

“Ah… e esse?”

“Toureiro, ex-marido de  uma filha da Duquesa de Alba”.

“E quem é essa Duquesa?”

“Iiiiihhhhhhh!¨

Diálogos intermináveis de aprendizado intenso.

O mais curioso é que as diferenças culturais aparecem nos lugares mais inimagináveis, como por exemplo no ato simples de abrir e fechar as janelas, nosso eterno ponto de discussão.

No Brasil, quando está calor, o que fazemos? Abrimos todas as janelas. Aqui eles fecham! Abrem de manha cedinho para circular um pouco o ar, depois fecham tudo, baixam as persianas e a casa fica em penumbra e se mantem mais fresca. Mas por mais que eu entenda o processo, é algo que me supera. Se está calor eu vou abrindo tudo. E Nacho atrás, fechando…

Sei que essas diferenças são a parte mais divertida de viver fora. Esperamos que os meninos aproveitem cada uma delas e que aprendam que a tolerância com o outro é o que enriquece a vida. Mesmo que para isso tenham que aprender a viver sem tanque.

 

Comentários

  1. A-DO-REI! De verdade, também não consigo me adaptar a essa história de viver com a casa fechada, escura, logo quando o céu fica mais azul e o sol ilumina nossas almas. Minha sorte é que o João também é brasileiro e quer ver o céu. Para o calor a gente liga o ventilador, porque a casa é antiga e não tem ar condicionado. Ah, e essa dos toureiros não tinha ideia que era tão ligado ao que é célebre na terra. Muito bom. Beijos

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