“És um senhor tão bonito/quanto a cara do meu filho/ tempo tempo tempo tempo”

Tenho um amigo que lá nos anos noventa, me disse que um dia estaria em Cannes. Resposta inesperada, em que ele pareceu pretensioso, grande e ao mesmo tempo corajoso e encantador. Naquele instante, me lembro bem, eu era um palito de fósforo, que queima rápido demais. Vivendo o presente do indicativo, sempre. Perdi o contato com esse amigo durante um tempo, mas sabia notícias por um e outro, pelas redes sociais. Semanas atrás, dei a ele os parabéns porque será júri no Festival de Cannes. Conseguiu o que queria desde quando não era “grande”.

Pois e eu? Eu queria voar. Tinha e tenho sonhos repetidos onde num pulinho simples posso flutuar, até que lá do céu, sinto um gelado na cara, vejo aqui embaixo tudo pequeno e eu lá em cima, sozinha, tão feliz… Antes da Antônia, olhava pra dentro e via a mesma garota desasossegada recém amiga da matu(e)r(n)idade. E disse isso a outro amigo, nesta mesma ocasião, tomando um chope no Brás do Jardim Botânico:

“Lucas, eu me sinto com 19 anos cara… Nem vi o tempo passar… Continuo a mesma!” e ele, recostando na cadeira respondeu: “Pois eu me sinto com 89”. Foi uma gargalhada geral, pedimos mais uma rodada e fui pra casa matutando aquela ideia sem entender muito bem o que ele dizia.
Depois da Antônia, ficou tudo diferente. Foi como ganhar de volta um tempo que nunca tinha sido meu. Foi desatar os nós fracos e fortalecer só os fortes. Foi escolher só encontrar quem eu gostava, só procurar quem me procura, só falar o que valia a pena. Com dois filhos eu não queria mais perder tempo com nada que não fosse precioso. Passei a escolher os clientes, cobrar mais pelo meu trabalho e viajar, viajar muito. Ia para Londres e Paris, todo fevereiro e agosto, durante cinco anos. Nestas viagens voltei a escrever e desenhar. Visitei todas as exposições que quis. Fotografei todas as estranhezas ao meu olhar, no meu tempo. Tomei café da manhã de noite e jantei de dia. Me apaixonei pelo meu silêncio. Trinta dias por ano só comigo. Assim como o meu amigo, eu também tinha conseguido o que queria: Eu voava.
O Pedro sempre soube que seria assim e foi por isso que me pegou de jeito. Sabia que tinha que me soltar as rédeas.
E porque soltou, eu fico. Passo a compreender exatamente o que disse meu amigo no Bráz e me sinto com 89 anos. Ando com vontade de ficar quieta, ouvir o marulho das ondas, brincar com as crianças, aprender a fazer bolo sem solar. Estamos felizes, completos e inteiros, na nossa primeira casa de verdade.

 

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