Tecla SAP

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O sol mal apareceu no horizonte e Vicente chegou no quarto:
– Mamãe, acorda. Vamu bincá de avião, vamu?
E lá chegava o nosso tuga carioca. Nascido em Portugal, mas com raízes totalmente brasileiras, escolheu se comunicar com a família com sotaque carioca, tem bom gosto, imita tudo o que vem do pai. Saltitando entre dois continentes, no meio da brincadeira começou a cantarolar:
– Que linda falua que lá vem, lá vem. É uma falua, que vem de Belém.
Tive que aprender que falua é um veleiro que atravessava a margem do Tejo, e também tentei ensaiar a cantoria em família, mas como não sei cantar com sotaque apertadinho, ele me pediu:
– Mamãe, você não canta. Você não sabe cantar essa música.

Na mesma manhã tivemos que sair correndo para a escola, deixar o Bento e em seguida o Vicente (são duas escolas). Eu, brasileirinha, sempre atrasada, já aprendi que nunca se acha vaga para estacionar o carro e descer com as crianças. Por hábito, os pais param o carro no meio da rua estreita, colocam os ‘miúdos’ para dentro da escola e quem estiver atrás que espere. Demorei para me acostumar com isso, mas confesso que às vezes não tem jeito e também cometo esse deslize. Hoje eu era a primeira da fila, atrás de mim estavam sete carros que esperavam calmamente que Bento e seu amigo João – que passara o domingo conosco e agora descia do carro de trás – terminassem sua conversa e entrassem na escola. Bento, quando avistou o amigo, rapidamente acessou sua tecla SAP e começou a falar com sotaque apertado:
– João, esqueci-me de trazer-te a foto de ti a jogar bola com meu pai no parque.

Sem buzinas, calmamente entrei no carro e continuei minha viagem, lembrando que, apesar de toda essa confusão que faziam no trânsito, em 2013 os portugueses foram os europeus que passaram menos tempo dentro de seus automóveis em engarrafamentos. Pelo menos, algum reflexo positivo provocado pela crise.

Já na porta da escola do Vicente, esperávamos que abrissem a porta, quando ele começou:
– Aquele elétrico vai para a Tailândia, aquele carro para a Itália e o outro, hummmm, o outro vai para o talho (o açougue português).
Os portugueses adoram crianças e um senhor que passava pela rua explodiu em gargalhadas.
– Mas o que é isso? No meu tempo um miúdo desse tamanho não tinha ouvido falar nesses países. No talho sim, mas essas crianças globais…

Quando finalmente entramos em nosso refúgio Waldorf, fizemos a roda de música com as crianças no jardim externo, perto da pequena horta. A canção do bom dia envolve todos os pais multinacionais daquela pequena comunidade. Cantamos em português, inglês, alemão e italiano. Logo depois, para sinalizar a iminência da primavera, as crianças dançavam ao som de uma cantiga brasileira.

“Entrei num jardim de flores,
Não sei qual escolherei
Escolho a mais formosa,
Aquela que abraçarei.”

No final da dança, uma homenagem ao pequeno Diego e à sua mãe, que estavam conosco. Esta família de alemães teve que deixar Portugal no ano passado por conta da crise. Com saudades e aproveitando a casa que aqui deixaram, apareceram para aproveitar alguns dias de calor e rever os amigos da escola.

Saí contagiada pela calma, pelo sol, pelo perfume de lavanda que exalava no jardim e pela gentileza dos amigos da terrinha. Entrei num bar logo à frente para comprar um Halls. O senhor não me compreendia e eu apontei e expliquei que queria o rebuçado azul à esquerda (bala aqui é rebuçado).
– A senhora quer um um alls?
– Desculpe, senhor, mas no Brasil a gente pronuncia o “H” no começo das frases como se fosse um “R”, me expressei mal.
– Ah, a senhora é brasileira. O Brasil é muito melhor do que aqui.
– Não meu senhor, não é melhor, é diferente.
– Pode ser, minha senhora, pode ser.

Estava cabisbaixo e pensativo quando me entregou o troco e disse mais animado:
– Aqui nessa casa oferecemos almoço típico português. Temos bitoque (no Brasil, o famoso bife à cavalo), bacalhau, peixe fresco. Pode vir, temos almoço todos os dias.
Pronto, falou da comida de seu povo e finalmente encontrou um motivo para respirar orgulhoso.

Fiquei aliviada. Por alguns instantes tive receio de que a conversa sobre a crise nacional tomasse conta do meu humor. E, de fato, aqui isso não seria difícil de acontecer. Mas com um olhar leve, otimista e um tanto brasileiro, ajudei a despertar naquele sujeito calmo e quase triste um olhar esperançoso e conseguimos terminar a conversa entre peixe fresco e bacalhau. E com uma sensação estranha e boa, percebi que amanhã nosso barco pode até partir para outro porto, mas Portugal nunca mais vai sair de dentro da gente.

Comentários

  1. Que lindo post, Bia. Mais um que acho ótimo. Vou te contar uma história que aconteceu comigo num barzinho de estrada na Espanha. Eu queria umas balinhas de hortelã e pedi Balitas, apontando pra um pacotinho verde na parede. E o rapaz apontou todos os pacotinhos pendurados: de batatas fritas, bolachinhas, e outros. E eu pra explicar: Balitas de hortelana. E ele chamou um português pra me atender que me explicou que era Caramelos de menta ou mienta, sei lá. hahahahaha. Adorei as crianças falando com sotaque daí. beijos

  2. Especial o seu olhar para as coisas, Bia! Uma delícia acompanhar as evoluções do tuga carioca, assim como saber do miúdo que transita entre elétricos que vão da Tailândia ao talho e nunca esperam pelas filas duplas! Refrescante, seu texto. Tal e qual o rebuçado sem o ‘R’! Vontade de pegar um vião, uma falua ou até um elétrico especial para depositar os beijos de vocês no rostos próprios.

  3. Portugal e especialmente Lisboa e os dias que passamos juntos nunca mais sairão do meu coração. É uma memória que eu resgato todas as vezes que preciso de um “ânimo” para me sentir livre e feliz.
    Mais um lindo post. Gostaria muito de vê-los num livro. São sinceros, genuinos e proprietários.
    Com amor.

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