O que tem que ser e o que é para ser

mae_klimtQuando descobri que ia ser mãe pela primeira vez fui apresentada a um sem número de ”tem que ser” pelos ditadores da maternidade.

Você sempre vai ter alguém para ficar repetindo esse mantra da tortura no seu ouvido:

Tem que engordar só nove quilos, ter parto normal e amamentar até o bebê ter dois anos.

Tem que fazer exercício, alongar, caminhar, nadar e fazer ioga porque gravidez não é doença.

Tem que lavar as roupinhas à mão, ter todo o enxoval pronto meses antes.

Tem que colocar o bebê para dormir sozinho no quarto, ensinar ele a dormir sozinho, só dar papinha caseira.

Tem que voltar a trabalhar após quatro meses, estar sempre linda e magra, feliz da vida, bem disposta para o marido, seu bebê, a família, os amigos.

Felizmente, não foi nada assim.

Os mitos da maternidade foram caindo por terra e fiz do meu jeito, do jeito que consegui, do jeito que é para ser.

Foi sofrido. Muito. Porque de tanto ouvir, de tanto saber de mãe-que-teve-parto-normal-igual-a-índio-amamentou-deixava-o-filho-no- berço-para-dormir-sozinho-desde-os-15-dias-de-vida- nunca-deu-uma-chupeta-para-a-criança-engordou-só-oito- quilos-dormia-a-noite-inteira-conseguia-ir-ao-cinema-sem- dormir-no-trailer-cozinhava-todas-sopinhas-do-bebê- colocava-o-filho-na-creche-sem-culpa-e-transava-cheia-de-tesao-todos-os-dias, você acha que tem que fazer igual.

E você passa uns maus bocados por isso. E pior: seus filhos e o mundo ao seu redor também.

Por isso, amigas, ouçam bem: as pessoas mentem!

Ninguém é capaz de tudo isso. Tudo isso junto, não.

Tive parto normal e cesárea, amamentei exclusivamente e dei mamadeira, botei criança para dormir no quarto e na minha cama. Dei papinha industrializada e papinha da empregada. Engordei nove quilos de uma vez, dezoito em outra, treze na última. Usei a maldita cinta para dormir e não usei durante um mês porque ela não entrava. Fiquei meses sem conseguir pensar em sexo. Deprimi.

Sobrevivi. Fui feliz. Do jeito que dá para ser, apesar da lista de regras, apesar das pessoas que insistem em sussurrar em nossos fracos e inseguros ouvidos.

E o que de melhor ficou: faça do jeito que você conseguir, porque você é a melhor mãe que seu filho pode ter.

E deixe as mães ao seu redor livres para serem o que conseguirem ser.

Comentários

    • Obrigada, querida. Vi ontem uma mãe ser massacrada pelas amigas, não tive como resistir. O mundo anda muito difícil para ficarmos policiando umas às outras, não é?. bjos

  1. Raquel, eu sempre falo MÃE MENTE. Elas falam um monte de coisas e não fazem. Que coisa louca. Digo que tem um ranking imaginário das mães. Parto normal? Ponto. Parto cesária? Não tão boa mãe. O bebê dorme sozinho? Ponto pra você. Na sua cama? Pééé. Soa uma campainha… errada!!! E por ai vai. Um puta saco. Sorry. Outro dia perguntei como colocava o bebê no berço sem acordá-lo porque nunca consigo. Meu filho “despenca” do meu braço e acorda…. (rs). Menina, pra que foi falar isso… acho que foram mais de 20 comentários: como assim você coloca o bebê no berço dormindo?? Coloca ele acordado e ele dorme sozinho. Que absurdo, colocar o bebê no berço dormindo. Você nina ele?? Meu Deeeeeeus que horror. Seu post foi ótimo. Parabéns!

    • Oi Mika! Dividindo com vc: meus filhos sempre acordavam quando eu os colocava no berço.
      E melhor: eles dormiam mamando no peito!!! Imagina o que as militantes não exclamariam a respeito! Obrigada! Bjs

  2. Adorei Raquel. Precisamos de mais espaço pro imperfeito nesse mundo, porque é assim que todos somos. E mais bacana sua atitude solidaria com uma mãe que pelo jeito não teve voz pra mandar todas as outras que foram cruéis com ela pra algum outro lugar. Beijo

  3. O que mais detesto é a ditadura do ” se não está comigo, está contra mim”. Já temos tanto que fazer, para também cumprir com as expectativas dos outros. Beijos Raquel!

  4. Texto irretocável…especialmente nessa parte: “Por isso, amigas, ouçam bem: as pessoas mentem!” …e é verdade, as pessoas mentem. Definitivamente ninguém consegue dar conta do que o povinho do “politicamente correto demais” quer para aqueles que não sejam eles…eles não…eles podem fazer do jeito que quiserem. O politicamente correto demais é pros outros tentarem e se sentirem diminuídos quando fracassarem. Tá cheio de gente assim: cheios de regras pra ditarem…pros outros. Eu tenho 3 filhos e tive um segundo parto difícil, às vésperas de dar à luz recebi uma transfusão de sangue tamanha a anemia em que eu estava…tinham sido dois partos na sequência(minhas 2 primeiras filhas tem um intervalo de 11 meses somente). Nessa transfusão eu tive uma reação leucocitária que foi controlada, porém me deixou cansada e estressada às vésperas do parto. O parto foi tenso, correu bem, mas tenso…terminei exausta, apaguei. Uma hora depois eu estava apagada no quarto e a enfermeira entrou com um ar professoral e arrogante(segundo o meu marido, que é um cara tranquilo) dizendo ao meu marido que eu precisava acordar para dar de mamar…minha filha estava dormindo no colo dela, não sentia fome, estava quietinha. Mas ela insistia em acordar as duas porque “quanto antes a amamentação começar, melhor”. Meu marido explicou a situação e procurou ponderar…a mulher insistia em dirigir nossas vidas com seu diploma de enfermeira. Meu marido pegou a Rafaela no colo e colocou a mulher para correr dali…dormimos, eu e Rafaela, por 5 horas sem que ninguém nos incomodasse. E são essas coisas…a autora está certa: faça do seu jeito. Contar com a ajuda dos outros é uma coisa, se forçar a aceitar a ajuda dos outros é outra. Bjs

  5. Dá pra bater palmas? Eu sempre dizia q grávida feliz e plena só existe em Caras. Que na minha casa, a grávida enjoava, sentia dores, chorava o tempo todo e só pensava em comer sushi (ao ponto de pedir pro marido e ficar cheirando pra ver se a vontade passava). Tb passei por cesárea e normal. Mas, sabe o q? Melhor se viesse pronto! Seu texto é libertador, Raquel. Obrigada!

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