O presente.

Bento presente

Em nosso calendário anual Gregoriano, um ano tem 365 dias que são definidos pelo tempo em que a terra demora para dar a volta completa em torno do sol. Acontece que a cada ano sobram algumas horas e para corrigir esta falha entre o tempo da natureza e o tempo definido pelo homem, foi criado o ano bissexto, evento que ocorre a cada quatro anos. Este dia, foi acrescentado ao final do mês de fevereiro e curiosamente nosso primeiro filho chegou bem nesta data. A probabilidade de alguém nascer em 29 de fevereiro é de 1 em 1.506. E definitivamente, se tem uma característica inquestionável que acompanha nosso garoto, é que ele segue a vida colocando em questão tudo o que é padrão. Quem conhece, sabe do que estou falando.

Este ano, então, ele queria, porque queria que seu aniversário chegasse dois meses antes da data oficial. Bento ainda não sabe da peculiaridade do seu dia e no começo de janeiro eu tentava fazer com que se arrumasse para ir à escola quando começou o assunto:

– Veste sua cueca, meu filho.

– Não, agora eu quero que seja o dia do meu aniversário!

– Como assim meu filho? Hoje é dia 10 de janeiro. Você sabe o dia do seu aniversário, não sabe?

– Sim, 29 de fevereiro.

– Pois é, ainda falta algum tempo. Até podemos pensar no que fazer para a festa, mas agora temos que nos vestir para ir à escola.

E ele insistia:

– Mas-eu-quero-que-o-meu-aniversário-chegue-hoje!

Respirei fundo, peguei o calendário e mostrei:

– Hoje é dia 10 de janeiro. Vamos contar quantos dias faltam para o seu aniversário  (rapidamente roubei no jogo, pulei uma página para que o mês seguinte chegasse ao dia 29 e fomos contando juntos até lá).

Ele não se deu por vencido. Bento possui um jeito peculiar de pensar, organizando sempre na cabeça o que deve acontecer depois do momento presente. Eu quase perdi a paciência, fiz todo um discurso sobre prestar atenção no que vive agora, aproveitar bem os últimos dias dos seus 5 anos de vida, que ele nunca mais ia ter essa idade, etc, etc. Enfim, papo distante para o entendimento de uma criança, mas eu tentei. E ele foi para a escola contrariado, sem querer que aquele fosse o dia 10 de janeiro e sim  dia 29 de fevereiro.

Exausta, já sem argumentos e nenhuma paciência, resolvi conversar com a educadora (aqui não se chama professora) e contar o que tinha acontecido. “Ih Bia, semana passada falei brevemente sobre o mês de fevereiro, que só de 4 em 4 anos tinha o dia 29 e que esse ano terminava no dia 28. Será que foi isso?”

Bingo. Bento tem uma antena e tanto, deve ter ouvido alguma coisa, não entendeu direito a história e pronto, virou um ponto de ansiedade. E confesso que não tinha sequer desconfiado dessa hipótese.

A partir desse episódio era importante planejar e fazer essa data se materializar antes mesmo de fevereiro chegar. Independente do que diz o mundo, ele tem que sentir que sempre terá um belo espaço no tempo para comemorar seu aniversário. Bento escolheu seus presentes: um livro sobre alimentação saudável, do Sid Cientista, um CD de cantigas portuguesas, um DVD do Looney Tunes e uma festa com todos os  amigos da escola.

Com foco na festa, que iria acontecer no nosso 29 de fevereiro particular, João e eu começamos a imaginar qual seria o melhor cenário.

Pensamos em piquenique num jardim, mas o clima dificilmente está bom nessa época do ano. Depois consideramos a nossa casa, mas me veio à memória sua festa de 4 anos.  Sua escola era menor e chamamos 15 amiguinhos da sala. Vieram dez, que se somaram aos nossos amigos com filhos. A criançada ficou incontrolável, a casa uma bagunça total, Bento que é mais tranquilo ficou meio atordoado e os adultos, nossos amigos, pareciam confusos, sem falar da exaustão de todos. Este ano seriam 23 crianças, o desafio era bem maior. Aqui, habitualmente os pais não costumam ir às festas, a menos que sejam amigos ou familiares dos aniversariantes. Então seríamos nós dois contra todos os 23.

Meio confusa sobre o local e a quantidade de pessoas, fui falar com uma das educadoras que conhece bem o Bento e a nossa casa. Ela sugeriu:

“O Bento é muito querido pelos amigos. Acho mesmo que seria bom convidar todos os colegas. Simplifica, faz na tua casa que é grande. São duas salas, você e o João chamam alguém para ajudar, dividem a turma em 3, cada um faz uma atividade em grupo e as turmas vão trocando de sala. Depois é hora do lanche, bolo e acabou-se a festa. Em duas horas e meia está tudo resolvido e os miúdos, incluindo Bento, vão ficar felicíssimos.”.

Imaginamos então alguns cenários diferentes: João toca violão e ensaia músicas com oito crianças. Eu trago panos, inventamos fantasias, criamos peças de teatro para as outras oito. A Dalia, babysitter portuguesa que eles amam, poderia fazer pizzas com os outros sete. Cheguei a achar divertido, João não ficou confortável (não que eu estivesse, mas resolvi inventar essa personagem que dá conta de orquestrar a turma toda) e passamos dias vasculhando possibilidades. Ele principalmente.

Passadas algumas semanas de discussões, fomos visitar o Pavilhão do Conhecimento. Uma espécie de feira de ciências gingantesca em que as crianças caminham amarradas a uma corda suspensa como se estivessem na lua, se vestem de engenheiros para construir uma casa com tijolos de espuma e mini-guindastes, fazem experiências com tintas e muitas outras atividades. Bento ficou fascinado. Vestiu a fantasia de astronauta umas cinco vezes, e de lá nem ele, nem o Vicente e muito menos nós dois queríamos sair. Ficamos até fechar e decidimos: aqui vamos fazer a festa. Nosso astronauta conseguiu desacelerar aqueles pensamentos que viajam com a velocidade da luz e por os pés firmes na terra por mais uns dias.

BlogPavilhão

Finalmente, chegada a data da comemoração, duas jovens encantaram nossos vinte convidados. As crianças se divertiram e, na maior parte do tempo, ficaram em paz. Nosso papel era assegurar que ninguém fugisse da turma, oferecer o lanche ao final, organizar o parabéns e devolver todas as crianças, felizes de preferência, aos seus pais.

Missão cumprida com sucesso. Saímos de lá cantando juntos no carro, vidros abertos, curtindo um escandaloso céu azul.

– E então, Bento, foi boa a festa, não foi?

-Sim, mas a seguir o que vamos fazer? E, sorrindo, completou:

-Faltou irmos ao parque.

Rendidos por ele, pelo primeiro dia de sol e calor, pela leveza da ausência do casaco, terminamos o dia no Jardim da Estrela, o nosso preferido em Lisboa.

Comentários

  1. Que delicia! Hugo é o mais novo da classe, todos já está fazendo 4 e ele só no final do ano. Toda a semana me pergunta quando vai ser seu cumpleaños. Haja paciência!

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