O Pequeno Buda

Tenho quatro irmãs, todas têm filhos e todas amamentaram. Minha mãe também deu o peito a todas nós e, na minha vez, também amamentou ao meu primo William, que desde então é meu querido irmão de leite. Quando fiquei grávida, a questão da amamentação nunca foi uma dúvida. Dar o peito é o que as mães fazem. É o normal. O natural. Surpreendeu-me descobrir que aqui na Espanha esse saudável hábito se estava perdendo. Desde os anos 70, diminuiu muito o número de mulheres dispostas a amamentar. As razões de sempre: licença maternidade pequena (quatro meses), horários de trabalhos absurdos por causa da parada de três horas para o almoço, a crença de que o bebê que toma mamadeira dormirá a noite toda antes que os de peito, a descrença no valor nutricional do leite materno porque a publicidade dos leites de lata é massacrante, etc e etc. Assim, para meu espanto, no curso de preparação ao parto que fui, apenas 40% das futuras mães levantaram a mão quando a matrona (enfermeira especializada em obstetrícia) perguntou quem tinha intenção em amamentar.

Como acredito que toda mãe quer o melhor para seu filho, não discuto a decisão de ninguém. Mantive minha intenção, vi videos sobre o tema, li livros e achava que estava preparadíssima. O que não esperava era passar por um parto tão traumático (texto anterior Nascer na Espanha). Eu e Hugo estávamos machucados, doloridos e eu emocionalmente tocada pelo tamanho da agressão. Não consegui amamentar. Hugo simplesmente não agarrava o peito. Chorava de fome, se desesperava e não mamava. O hospital imediatamente deu a solução: mamadeira. Fiquei arrasada! Se já estava mal, não conseguir amamentar me deixou ainda mais triste. No hospital ouvi muitas frases de “ânimo” como: “teu peito é muito grande para amamentar”, “teu bico do peito é muito pequeno para amamentar”. E aí compreendi porque lutar para melhorar o índice de aleitamento materno é tão difícil. Recusei a mamadeira, mas levei Hugo para casa dando-lhe leite com uma seringa, com a esperança de que, pouco a pouco, nós dois conseguíssemos superar o problema.

Chegamos em casa uma quinta. Na sexta, eu chorava de dor pelo leite empedrado. Nacho, com seu sentido prático, decidiu pedir ajuda a google. Digitou: ayuda lactancia materna zaragoza. E a página que nos saiu foi: www.lactaria.org . Havia um número de contato e ligamos. A pessoa que atendeu, Pilar, é desses seres iluminados que de vez quando cruzam nosso caminho. Disse que se era urgente, iria a nossa casa imediatamente, se não, que fôramos à reunião que acontece todos os sábados de manhã. E lá fomos. Lactaria é formada um grupo de mulheres voluntárias, que trabalham grátis para melhorar a vida dos outros. Ensinam o melhor modo de posicionar o bebê, dão apoio, ensinam a tirar o leite, a fazer massagem, conversam, dão ombro. Enfim, fazem o papel que o serviço público é incapaz de fazer. Pilar me ajudou a desempedrar o leite. Animou-me a seguir, me escutou. Voltei para casa bem mais tranquila e no dia seguinte, como mágica, Hugo começou a mamar e se transformou no nosso Pequeno Buda.

À Lactaria voltamos muitas vezes. Não mais para pedir ajuda e sim para ajudar. Eu e Nacho contávamos nossa historia a outros pais que passavam por problemas parecidos. Espero que tenhamos contribuído e assim devolver pelo menos uma parte do enorme e inestimável favor que nos fizeram.

Comentários

  1. Rosane, passei por algo similar com a Elisa. Eu tinha pesadelos com isso… Ninguém me disse q seria tão difícil amamentar. Ainda bem q vc não desistiu e ele virou esse fofo.

Comentar