O Monotema

Sábado passado fomos no aniversário de três anos de uma pequena brasileira/espanhola e lá conhecemos um simpático casal de gaúchos, também pais de uma menina da mesma idade e sete anos de Espanha. Durante o bate-papo, Maurício, o novo amigo, nos pergunta:

_ Vocês também discutem o ¨monotema¨?

Eu e Nacho rimos porque sabíamos exatamente ao que ele se referia: voltar. Não conheço nenhum brasileiro que more no exterior que não sonhe, não planeje, não deseje voltar para o Brasil. Nacho até se surpreende:

_ Brasileiro é tudo igual!

O certo é que o verbo voltar está na cabeça de todos, às vezes desaparece por um tempo, mas sempre está aí, como algo mágico que será alcançado algum dia. Porque encontrar o caminho de volta não é nada fácil, principalmente com duas crianças pequenas. A responsabilidade é maior e também o medo de mudar uma rotina que funciona em busca de um desejo que nem sempre é real.

Depois de cada férias no Brasil retornamos mais assustados. Não, não é com a violência. Na verdade a cada ano acho o Rio de Janeiro mais tranquilo. Sim, é sério. Obviamente não participo de nenhuma estatística oficial, é apenas uma percepção pessoal. O que assusta mesmo é o caro que tudo está e o trânsito caótico.

Seja porque tem mais gente na classe média consumindo, seja pela simples e pura roubalheira da especulação por causa da Copa e Olimpíadas, a verdade é que férias no Brasil atualmente é luxo. Vamos porque a saudade da família e amigos é grande. Gastaríamos menos indo a qualquer outro lugar. Muito menos. Viajar ao Caribe, até mesmo para a Tailandia, é bem mais barato. E olha que não pagamos hotel no Rio. Então começamos a fazer contas: quanto precisaríamos ganhar para ter o mesmo nível de vida que temos aqui? Que é: viver em um apartamento bom, perto do Centro, ter os filhos em boas escolas em tempo integral e bilingues, ter uma boa cobertura médica e uma vez por ano viajar de férias. E as contas não fecham.

O trânsito caótico é a outra ponta do iceberg no quesito qualidade de vida. Para mim qualidade de vida atualmente se chama ter tempo. Tempo para estar com as crianças, buscar na escola, brincar no parque, ler para elas dormirem. Tempo para ir ao cinema com o marido, para bater-papo com uma amiga e até para escrever esse blog. Como fazer isso passando tantas horas diárias no trânsito? Sinceramente, como eu sempre brinco com meus amigos cariocas, vocês não querem que eu volte!

 Então vamos empurrando o sonho com a barriga, vamos ficando, ficando, até que tem mais arrocho salarial na interminável crise econômica espanhola, até que mais um casal de amigos se vê obrigado a procurar trabalho em outro país porque o desempregro aqui está imparável. Isso sem contar com a saudade, essa velha amiga traiçoeira, que nunca se despede, se esconde, mas sempre está por aqui. Então, pensamos: claro que voltamos! E ninguém volta. Como no filme O Anjo Exterminador, de Buñuel (aliás, ilustre aragonês). Ninguém sai, ninguém sai!!

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Nosso Rio de Janeiro sonhado e amado.

Conviver com o “monotema” não é fácil. Corremos o risco de deixar de aproveitar tudo que o outro país oferece, por causa de um desejo talvez ilusório. O país sonhado que deixamos atrás já não é o mesmo. Não ficou congelado no tempo. Não ficou esperando impassível a gente viver a nossa vida em outro lugar. Ninguém volta para o mesmo lugar simplesmente porque ele não existe mais. “Ninguém volta ao que acabou”, já escreveu Chico Buarque. E nós também não somos os mesmos. Sem nos dar conta, fomos mudando. Adquirimos novos hábitos, amadurecemos, temos novas responsabilidades, outras aspirações e ambições. Enfim, questões muito mais importantes que o tema dinheiro e qualidade de vida ajudam a esconder.

Então, o monotema deveria trocar o verbo “voltar” pelo “continuar”. Aqui e lá. Seguir nossa história a quatro, vivendo cada momento, que afinal é tudo que temos. 

Comentários

  1. Li com a sensaçao de que eu havia escrito linha a linha. Mesmos sentimentos e mesma realidade…sim, tenho vontade de voltar um dia, mas a conta nao fecha e por enaquanto vejo muito mais qualidadede vida aqui para a família. Sao Paulo dá medo, pensar em voltar agora nao seria verdade…!

  2. Rosane, que texto maravilhoso. E quanta verdade tem aí. Eu estava justamente em momento brainstorming em casa (o futuro) quando abri seu texto e logo chamei meu João para ler. O monotema está em pauta por todo lado. Obrigada. Beijos.

    • Outro dia tivemos um debate em casa: precisamos comprar uma cama para Carol, tirar do berço. E Nacho, mas se vamos ao Brasil é besteira comprar agora. Sempre a mesma história. Não, a menina vai para a cama sim! Viver o agora!

      • Pois é, mas nós estamos naquele momento dos casais amigos que vc tem aí e que estão se espalhando por outras áreas do mundo. Trabalho novo aqui? Não vai dar. Nossa área é minúscula aqui e a fase é de corte de verba. Projetos culturais? Eles não estão investindo nada, mas temos escrito coisas e nos enriquecendo pessoalmente. Temos mesmo que viver o agora com o olho no daqui a pouco. Ah, e também andamos com a questão comprar caminha. Arrancamos a grade do berço e ele ficou com uma coisa ‘meia boca’, tadinho;-) Beijos

  3. Rosane, estamos em sintonia. Há dez anos que penso em voltar, mas está cada dia mais complicado. Mas, eu tenho sempre em mente que aquele Rio com o qual eu sonho não é o Rio que vivo quando estou de férias. É um Rio de saudade. É um Rio em que eu não era mãe, não tinha preocupações com escola e transporte das crianças e “onde elas vão fazer natação”… É um Rio em que eu andava a pé para ir ao meu botequim preferido em que não havia uma fila de duas horas para sentar. E qdo a saudade aperta, eu tento me lembrar do Rio de hoje, do Rio que vivo nas férias, que é bacana, mas diferente. É esse Rio de agora que terei que encarar se voltar. E o problema de quem sai do país e só pensa em voltar é que não concilia as duas cidades, os dois países, o que ficou pra trás e o que é.
    Nossa… ficou bem confuso… Mas, é mesmo assim.
    beijos e obrigada por traduzir tão bem esse sentimento do expatriado.

  4. Querida Rosane, minha irmãzinha…
    Fiquei comovido com o seu belíssimo texto. Nunca fiquei fora do Brasil durante muito tempo, assim faço um esforço para me colocar no seu lugar. O Brasil se encontra hoje em um momento econômico e político muito difícil, você sabe. Por causa da política, pela primeira vez pensei em sair do país daqui a alguns anos, quem sabe morar no Uruguai ou na Argentina, para matar as saudades mais facilmente quando ela apertar.Quanto à economia, muitos alunos que fazem Mestrado e Doutorado estão sem emprego. Depois que a tormenta passar, talvez seja um momento melhor para avaliar a possibilidade de um retorno. Um abraço apertado para você, o Nacho e as crianças…

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