Nascer na Espanha

Aproveitando a deixa da Roberta, minha companheira de blog, que narrou lindamente o nascimento da pequena Marina no Peru, conto como foi parir na Espanha, uma experiência absurdamente ruim, no caso do Hugo, e naturalmente fácil, no caso da Carol. E ao contrario do que dizem, que uma mãe esquece a dor quando vê a cara do filho, posso assegurar que minha experiência no primeiro parto foi tao horrorosa que me custou um bom tempo recuperar-me emocional e fisicamente. E eu não esqueci.

Sempre confiei na saúde pública. No Brasil, tenho duas irmas e um cunhado médicos. Excelentes profissionais à serviço de uma vida melhor. Mas no Brasil sempre tive, como quase todos da classe média, plano de saúde. Ao mudar para Aragón, foi uma grande alegria abandonar a saúde privada por um sistema mais solidário, eficaz, de qualidade e humanizado. E sigo pensando assim em todos os aspectos, menos com relação ao acompanhamento à gestante e ao parto. Se soubesse que seria tão ruim, teria optado pela saúde privada sem sombra de dúvida. O sistema é fechado, não admite mudanças no seu protocolo de atuação e trata a grávida como uma doente que não tem poder sobre seu corpo, incapaz de tomar decisões para ela e para  o seu bebê.

Ao receber o resultado positivo de uma gravidez, o médico de família transfere a “paciente” ao obstreta do bairro. Esse senhor não tem muito trabalho. Se limita a acompanhar o peso, a pressão e pedir exames. Ele não faz as ultras,  que são realizadas no hospital de referência, e também não acompanha o nascimento. O parto será realizado pelo médico que estiver de plantão no hospital. A consulta com o obstreta dura uma média de 5 minutos. Ele não conversa contigo, não te explica nada, não há um planejamento para o parto, não há nada. Quem faz esse papel são as chamadas “matronas”, enfermeiras com formação em obstetrícia, presentes em todos os centros de saúde. São elas que conversam, explicam, te preparam para o parto. Mas também não te acompanham no momento crucial. Não existe nenhuma relação de confiança entre grávida e os profissionais de saúde. Estamos muito bem monitoradas, examinadas, medidas, pesadas e ultrasonografiadas, mas abandonadas nas nossas dúvidas.

Apesar disso, a gravidez do Hugo foi tranquila, sem nenhum problema. Cheguei às 40 semanas sem sinal que o bebê fosse nascer. 41 semanas e continuava tudo igual. Todo mundo estava uma pilha de nervos. Ao chegar nas 42 duas semanas e nada do bebê querer sair, os médicos marcam um dia para internar e provocar o parto. Eu deveria entrar numa segunda, mas na madrugada do sexta para sábado, a bolsa se rompeu como uma cascata e lá fomos nós emocionados ao hospital.

Resumindo: entrei no hospital na madrugada de sexta para sábado e o Hugo só nasceu ao meio-dia de domingo, do dia 21 de novembro de 2010. Ele nasceu de um parto normal, que de “normal” não teve nada. Teve oxitocina para provocar as contrações que não vinham, epidural com apenas dois centímetros de dilatação, o que atrasou tudo, ventosas para puxar o menino que era bastante grande (4 kg, 51 cm), fórceps porque as ventosas não foram suficientes, episiotomia porque não havia passagem e por fim um médico gigante saltando sobre minha barriga para empurrar o menino, uma manobra que está proibida em muitos países. Tudo isso sozinha, pois não permitem a entrada do marido no centro cirúrgico, e sem nenhum médico conhecido. Hugo saiu desarcordado, demorou uns eternos segundos em chorar. Felizmente não precisou de incubadora, mas estava machucado, tinha um olho roxo como se tivesse participado de uma luta de box. Ele não merecia chegar ao mundo desse modo.

Por que agem assim? Creio que pela arrogância médica, que não reconhece a mulher como a responsável final pelo seu corpo. Falta de confiança, de diálogo. Falta de um sistema que humanize essa relação. Falta de implicação. Falta de mulheres que gritem contra essa ordem de coisas, porque também não confiam em si mesmas, em suas escolhas. Junte-se a isso uma ordem vinda da Uniao Européia para que a Espanha baixe o número de cesáreas. A média européia é de 12%, aqui 16%. Então, cesárea em ultíssimo caso. Querem baixar o número na força, não na preparação. Tudo errado!

Se Hugo estava ferido, eu estava acabada. Três dias na cama sem mal poder me mexer. Sem poder sentar, com um efeito colateral dos mais humilhantes: incontinência urinária. A semana mais horrorosa da minha vida, que deveria ter sido das mais bonitas. Tive uma belíssima depressão pós-parto, que os médicos no hospital fizeram questão de negar. Não conseguia amamentar. Não conseguia dormir. A única ajuda que tive do corpo médico foi de uma enfermeira, uma ex-aluna dos meus cursos de fotografia, que, com pena, me deu uma comprimido para dormir.

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Hugo no dia que chegou no mundo.

Desse parto horroroso, eu realmente só me recuperei quando, com dois meses, coloquei o Hugo debaixo do braço e fomos passar um mês na casa da minha mãe em Natal. Aí, com muito banho de mar, caminhadas na areia, muita água de coco, sol, pude por fim ser uma mãe feliz. Não costumo contar muito essa história. É algo que ainda estou elaborando dentro de mim. E o que contei é apenas um resumo. O que sei que até hoje o parto marcou muito a relação que tenho com meu filho. Tenho com ele uma super proteção, que não tenho com a Carol, que nasceu de um parto maravilhoso. Mas essa história deixamos para outro post.