Muambas tropicais

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Às vésperas do final de semana, recebemos uma boa notícia. Um casal de primos conseguiu tirar uma semana de férias de última hora e resolveu vir para Portugal. Durante a conversa pelo Skype, ela perguntava: “Bia, vocês querem que eu leve alguma coisa daqui?”. Eu disse que não, mas ela continuou dizendo que podia pedir e contou que quando moravam na Alemanha e depois nos EUA, sempre pediam para o povo levar muambas. Disse que até erva para fazer o chimarrão ia na mala dos que apareciam. Dei risada e fiquei pensando: não oferece de novo que eu peço.

Ainda não pedi nada, mas me lembrei de como os visitantes inventam moda para trazer um tantinho de Brasil para a gente.

Minha mãe traz o meu óleo de andiroba da Natura e, para os netos, brinquedos educativos, Mônica e Cebolinha. Minha querida sogra, sempre exagerada, parece que acabou de atravessar a fronteira de Ciudad del Leste. Com tudo perfeitamente disfarçado, traz sungas, panos de prato, panos de chão (aqui eles não usam quase pano de limpeza), Engov (não achamos nada parecido para combater a quantidade de vinho bom e barato), shampoos e sabonetes da Granado para as crianças, bananinha Paraibuna sem açúçar e biscoitos de polvilho, que acabam por chegar em estado quase farinhesco.

Aí me lembrei do meu pai, que veio 6 meses depois de termos chegado à Lisboa. Os biscoitos de polvilho e a bananinha já faziam falta para o Bento e ele, então, pegou uma receita na internet e trouxe sacos e mais sacos de polvilho azedo – não o biscoito, mas a farinha. Quando vimos o presente, só agradecemos por não ter sido parado na alfândega (como é que ele ia explicar aquela quantidade de pó branco na mala?). Depois, começou a tirar frascos e mais frascos do tal shampoo, que eu nem tinha pedido, mas a minha sogra tinha orientado: “Leva, a Bia adora os meninos com aquele cheiro.” Afinal, tínhamos dez frascos de shampoo. Mas, considerando o fato de que Vicente mal tinha cabelo e que a nossa casa é do século XVIII e não tem muitos armários, tive que começar a dar de presente para outras crianças, filhos dos amigos portugueses e estrangeiros.

Hoje, sinto cada vez menos falta do que consumimos no Brasil. O intercâmbio dos produtos é imenso, até as frutas temos quase todas. Só falta o maracujá azedo e a água de côco, dentro do côco.

Mas se ainda assim quiserem muito inovar na muamba, vou contar uma ideia fantástica que me deram outro dia. Conhecemos um senhor português que morou muito tempo no Brasil. Lá ele deixou alguns parentes, que frequentemente vêm para o visitar. Sabe o que ele pede quando alguém diz que vem? A pizza Carcamano da Pizzaria Braz. Juro! A encomenda é feita antes de saírem para o aeroporto. No caminho, param o táxi na porta, pegam as pizzas, colocam dentro de um saco herméticamente fechado e, segundo ele, chegam perfeitas para colocar no forno e comer. As que sobram (ele pede mais do que uma) ele congela e come depois. Será que  conseguimos dar um jeito de trazer o chopp cremoso da casa?

João também pede para colocar na mala a torcida do Flamengo. E eu queria a platéia brasileira, para ver com a gente o show dos Rolling Stones. Já as crianças querem praia com água quente que dê para ir o ano inteiro.

Digo então, meus queridos visitantes, que é melhor não perguntarem muito, porque a gente morre de saudades de coisas que vocês nem imaginam. Vale mais focar na bananinha Paraibuna e talvez no Engov, que vocês também podem precisar. E como para o céu não há limites, vou pedir que cheguem logo e tragam um bocado da alegria brasileira, de notícias das crianças, da família, dos amigos, da copa, das novelas, da música. A gente também quer que vocês voltem com a mala cheia das belezas que vamos viver juntos por aqui. Boa viagem.

Comentários

  1. A bananinha sem açúcar que, de fato, a galerinha gosta é de Ubatuba, viu futuros visitantes? E ainda descobri recentemente que a farinha prá fazer pão de queijo, que se compra no supermercado, é maravilhosa se acrescentar um pouco de queijo ralado. Fica igualzinho ao fresco. Como boa mineira, sogra da Bia, mãe do João e avó do Bento e do Vicente, confesso que não consigo viajar sem uma boa muamba. E quando volto a mala vem recheada de vinhos e de queijos do Azeitão e da Serra da Estrela. Que as alfândegas não me ouçam.
    Podem me convidar o quanto quiserem, viu “mães em rede”? Prometo abastecê-las com deliciosos quitutes prá matar saudades. Graça

  2. Mais um texto adorável!!!!Gostoso e real….
    Este me fez relembrar o tempo que era eu ,quem estava fora do Brasil (no final das décadas de setenta ,começo de oitenta)e esperava as Muambas que amigos e parentes levavam….Como era bom!!!!Bjos

  3. Sogra da Bia, quando vier a Espanha, favor trazer Mate Leão (só os caríocas entendem a falta que faz), livros em português e revista Caras, para a gente saber quem são os famosos atuais. E Bia, de Portugal queria couve!

  4. E Bia, meus pais foram parados no aeroporto de NY para explicar o pó branco na mala. Levavam polvilho para minha irmã no Canada. Perderam a conexão, sem falar nada de inglês. Ainda bem que meu pai falava um pouco de francês.

  5. Como membro do grupo dos visitantes quero dizer que a minha esposa vem de uma família da aristocracia dos “sacoleiros”. Quando volto da fazenda, ao invés de dar ao vizinhos as encomendas, muitas vezes penso em vender numa barraquinha do Ceasa. Queijo minas, canudinho de doce de leite, limão, banana, são as especialidades da logística de distribuição internacional familiar. Até cachaça que no rótulo (mais caseiro que eu já vi) estava escrito “validade ilimitada”, já entrou nos Estados Unidos em tempos de 11 de setembro.
    Bia, pode deixar que eu regulo as cargas ! De toda a forma, a da pizza até agora foi a melhor que eu já ouvi. Fico imaginando o entregador com roupa de motoboy subindo ladeiras em Lisboa e dizendo ao bater na porta: “Seu Manoel, Pizza Carcamano de São Paulo fresquinha, saída do forno!”.

    • Curt, estava aqui pensando que de repente a gente pode aproveitar esse talento da Geyza e abrir uma barraca chique por aqui. Fresquinhos mineiros. A ideia é muito oportuna para a tal onda de empreendedorismo local. Vc vai ver ;-). Adorei. Até muito logo.

  6. Bia, se me permite quero pegar carona nessa mala da sua sogra também… ainda tem espaço? kkkkk! Que delícia! Essas muambas são pura expressão de carinho.

  7. Bia, minha irmã que mora em Shanghai, sempre pede quilos de café pilão e feijão. Além do pó para pão de queijo yoki, que fica bem parecido com nosso pão de queijo, e os pequenos lá amam. Da próxima vez, é só pedir porque sempre tem espaço para muamba em malas tapuias. Bjs

  8. Bia, eu peço mesmo pq tem coisa q aqui na China não rola. Meu pai é igual à sua sogra. Até biscoitinho de feira ele trouxe pras meninas. Tb veio nescau, doce de leite, goiabada, guaraná e por aí vai… Adoro! O pessoal da empresa do meu marido vive chegando aqui com feijão, revistas, leite condensado… Fico tão feliz!! Vou pedir sabonete phebo da próxima vez… rs…

    • Livia, a gente devia fazer uma coleção das muambas mais criativas e audaciosas. Já me escreveram cada uma… E você, tão longe, deve sentir falta de mais coisas que a gente aqui. Pede o Phebo sim, sinto saudades dos nossos cheiros brasileiros 😉 Beijos.

  9. Bia, adorável seu texto, amei !!! Quanta muamba já levei para minha filhota nos USA também !!! A emoção de correr o risco de ser parada pela polícia, ter suas muambas vasculhadas é realmente incrível !!!! Mas dei muuuuuita sorte porque levar dúzias de guaraná, bombons , ovos de Páscoa, massa de Pão de Queijo, empadinha, coxinha, salgadinhos brasileiros, pó de café, etc..etc.. tem que ter muito amor no coração para correr este risco !!! Amei a lembrança desta fase !!! Hoje já tem mercado brasileiro espalhado pelo mundo todo, que bom !!!
    Valeu Bia !!!

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