É o que temos…

Lembro bem, desde pequena minha mãe sempre contava histórias de como eu tinha dado muito trabalho para comer. E no final da história vinha a frase: “você há de ter um filho igualzinho a você.”
É real que Lucca se parece comigo nos quesitos magrelo e comprido. Mas problemas de verdade , nunca tivemos em fazê-lo comer bem e saudável. Por outro lado- apesar de ter passado muito pouco tempo (risos)- os padrões de entendimento do que é uma criança saudável também mudaram bastante desde que eu era pequena.
De qualquer forma , como mãe o presságio da minha mãe sempre esteve presente em forma de medo.
Com o horário contínuo da escola em Madri, Lucca teria que comer a comida que era servida para todos no refeitório. Morávamos no centro de Madri e a escola ficava longe, em uma cidade ao lado. Eu não conseguiria levar almoço para ele.
A nossa experiência mostrou que os primeiros dias de aula não são os mais difíceis. Dificil é a segunda-feira seguinte à primeira semana, quando não tem mais novidade, o fim de semana com os pais foi bacana e a ficha já caiu de que não se trata de algo passageiro. E no campo da alimentação difícil mesmo foi o primeiro mês e meio.
No final da segunda semana de aula a professora me chamou e contou que Lucca não estava comendo. Para não dizer que não comia nada, comia iogurte e fruta. A sugestão da professora era levar sanduíche de casa. Escutei atentamente, mas definitivamente sanduíche não! Nada contra, mas não combina muito com a cultura alimentar de nossa família. Outra sugestão foi mandar a comida em  um termo, uma lancheira especial que poderia manter mais tempo tudo quentinho.
Ok, hora de brincar de problema/ solução. Elaborei um plano de ação contra a sombra do medo da profecia de minha mãe se realizar: 1- comprar o termo, 2- conversar com Lucca, 3- pensar em um cardápio que eu poderia deixar à noite praticamente  pronto e de manhã  era só organizar e esquentar antes de ele sair para o  ônibus.
1- Ufa! que alívio achar o tal do termo e comprar na seção de camping de um hipermercado
2- Nunca quisemos infantilizar Lucca, apesar de respeitar suas diferentes fases de desenvolvimento e compreensão das coisas. Ainda que filho único, antes de mais nada queremos criar uma pessoa que possa se responsabilizar por si e as coisas a seu redor. E a base dessa relação pais e filho por enquanto é uma conversa para entender o que acontece e fazer acordos. Nesse caso, afinal parecia simples: Lucca não gostava da comida da escola. O acordo que fizemos é que ele iria levar a comida de casa, mas que tinha que fazer um esforço e comer.
3- Maravilha, tudo nas embalagens do termo : todo dia uma delas com verdura, outra com o prato principal e a terceira com uma fruta . Às 6:30h da manhã era só aquecer a marmita moderna, fechar tudo bem fechadinho e pronto.
Funcionou… Por alguns dias . Confesso que o momento do dia de meu encontro com o termo ( mais especificamente com o que voltava dentro dele) era cheio de expectativa e tensão. No terceiro dia o termo voltou quase do jeito que foi. E a sombra da profecia de minha mãe voltou no momento em que eu o abri .
Regra do jogo do problema/solução: volte uma casa no tabuleiro. Casa 2 ,  a da conversa… E a justificativa foi que a comida ficava fria até a hora do almoço e ele não conseguia comer. O acordo: vamos tentar outra combinação de pratos. Ótimo, então avancemos para a casa 3 , a do cardápio : pensar em comidas que poderiam ser gostosas mesmo frias. Vamos nessa!
Funcionou… Por mais alguns dias . E o monstro da profecia já ria às minhas custas.
Volte novamente uma casa… A da conversa: ” não sei mãe. Não gostei. Não quero comer na escola.” Meu Deus que difícil! Eu já quase desesperada, depois de todo discurso de que ele não poderia ficar tanto tempo sem comer, que precisava de energia para poder brincar, crescer, aprender as línguas, acabei apelando para o acordo do sanduíche. Casa 3: pensei em super sanduíches saudáveis que nutricionalmente pudessem substituir uma refeição: proteína, legume/ verdura e o bom carboidrato . De sobremesa um iogurte em suas diversas versōes, para dar mais uma reforçada .
Na sexta-feira eu sempre ia buscá-lo na escola. E depois de quase 2 meses da mudança a minha ficha do tamanho do desafio da mudança de país também começava a cair. Entramos no carro e minha ansiedade não me deixou esperar… Abri o termo… Ele só tinha comido a sobremesa… Lágrimas começaram a escorrer no meu rosto sem controle. Não consegui me conter. Naquele momento, como magia das lágrimas, compreendi claramente a angústia que minha mãe deve ter tido comigo e o monstro da profecia se liquefez, se transformou nesse amor tamanho que sentimos por nossos filhos que faz do simples fato deles não comerem em uma refeição um sofrimento quase viceral. Óbvio que a questão não era o sabor de iguarias espanholas. Nas condições normais de temperatura e pressão ele comia até pulpo a la gallega e achava gostoso. Respirei fundo e tentei me controlar. Lucca estava assustado com meu choro e me perguntava sem parar o que estava acontecendo. ” Filho eu entendo o quanto é difícil toda essa mudança. Para todos nós. Tá bem duro para mim também. Mas eu preciso que você me ajude a te ajudar.” Ele também entendeu. Ali mesmo, dentro do carro parados na frente da escola ,voltamos para a casa 2, de novo a da conversa. E chegamos à conclusão de que das alternativas já tínhamos tentado, a menos  pior era voltar a comer a comida da escola.
Acordo feito. E dessa vez acordo cumprido.
Naquela sexta ao invés de voltar mais casas no jogo, fomos para nossa casa. Mas antes passamos numa lanchonete e tomamos um sorvete bem grande e cheio de cremes coloridos. Afinal, desde que eu era criança, sexta-feira é dia de besteira.

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