A chegada de Marina

Ela chegou de mansinho, justamente para testar a minha paciência que tanto faltou no final da gravidez (vide meu último post). “Mamãe tá ansiosa? Pois vou tratar de complicar um tiquinho mais isso para ela aprender a ter mais paciência…”, certamente já havia todo um plano na cabecinha dela e de Deus.

38 semanas de gravidez e de ansiedade. Foi no início de uma manhã que ela começou a dar os sinais de que estava pronta para vir ao mundo. O tão esperado segundo parto normal estava para acontecer, e se tudo corresse bem, seria naquele dia, e se Deus fosse generoso comigo, seria naquela manhã, sem muita espera, com a pressa que um segundo parto tem, como sempre me disseram. Mas sabe, alguma coisa dentro de mim me dizia que seria o contrário. Eu tenho dessas coisas, não sei bem como chamar, instinto, sensibilidade….eu simplesmente sentia que não seria fácil, e essa era a razão de toda a ansiedade dos últimos meses de gestação.

Fui para maternidade nesse dia 7 de março, as 10h. Contrações ritmadas, a princípio leves, sem sofrimento. Caminha, agacha, deita, respira. Volta tudo de novo. Foram 10 horas de trabalho de parto, então se eu contar tudo o que passou nesse tempo, além das dores, o post vai virar a página, assim que vou tentar resumir. Marina, minha menina teimosa já estava com uma circular de cordão há meses no pescoço. Até aí ok. Médico e eu sabíamos que 1 volta não era impeditivo para um parto normal. Vamos nessa. Contraía que era uma beleza, chegando a intervalos de 2 em 2 minutos.

Mas…”cadê a dilatação doutor?” No primeiro parto foi tudo tão rápido, quando vi já estava com 10 dedos, quando vi já estava na sala de parto e quando vi meu bebê nos meus braços. Mas Marina queria ser diferente, queria testar. “Minha filha, vamos abrir esse colo aí!”. Mas ela não baixava, não encaixava, e por esse motivo não dilatava. Cheguei ao máximo de 4cm e meio de dilatação depois de 10 horas com contrações.

“Roberta, podemos ficar aqui por 20 horas tentando, vai ser em vão. E vai ser arriscado para ela. Até agora os batimentos estão estáveis, mas depois de tanto tempo podem começar a baixar.  A dilatação não aumenta, não sinto mais a cabeça, está “flotante”. Esperamos mais 1 hora, se não evoluir mais nada, teremos que ir para a cesárea”.

CESÁREA. Ouvir aquilo foi difícil. Não queria uma cirurgia e estava tão certa disso que nem me preparei psicologicamente para essa opção. Acontece que, naquele momento, ela não era mais uma opção e tudo o que eu tinha que fazer era aceitar. Ao menos ela havia dito que estava pronta para vir ao mundo, havia dado seus sinais. Ao menos eu havia tentado e isso confortava um pouco a minha tristeza e diminuía a minha frustração. Mas confesso, eu detestei a experiência. Depois de passar por um lindo e emocionante parto normal, onde meu filho saiu como deveria, pela via “normal”, estar naquele centro cirúrgico, de touca, presa, como um sapo sendo dissecado,  sem sentir as pernas, sem sentir a mesma emoção, sentindo cheiro e vendo fumacinha de carne queimada do bisturi elétrico que abria a minha barriga….pensei mais uma vez: “Como existem mulheres que decidem e preferem a cesárea? Não entendo, respeito, mas não entendo”. Antes que esse post vire um daqueles starts para uma bela e longa polêmica parto normal x cesárea, seguirei adiante, para o momento mais esperado: a chegada da Marina.

21h16 horário de Lima. Ela veio linda, saudável, com dobrinhas….pequenina, mas com dobrinhas. Minha peruaninha, minha menina veio para me provar que sim, que existe amor suficiente no coração de mãe para receber da mesma forma o segundo filho.  Foi longo, foi sofrido e foi frustrante. Mas ela estava lá, linda, cheia de saúde e me esperando para alimentá-la. Eu estava então feliz. A cesárea seria esquecida diante de tanto amor e felicidade.

Hoje, 13 dias depois de nascida, estamos aqui aprendendo a lidar com o ciúme do mais velho, a novamente dormir pouco e a dividir as tarefas entre os dois, a casa, o marido e a vida num outro país longe da família.  Honestamente? Eu não poderia estar mais feliz. Ela veio para testar minha paciência e para duplicar meu amor.

Em tempo! Sim, “fechei a fábrica”, porque como se diz aqui “ahora tengo una parejita, que suerte.”

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