Quibe de Goiabada

Image

Cresci ouvindo que “o silêncio é de ouro e a palavra, de prata.” Eu sabia o que isso queria dizer, mas na prática, não compreendia. Não sei se a maturidade, ou a maternidade me fizeram entender e isso pouco importa agora…O que quero dizer é que se antes a verborragia seguida de imensas ressacas morais eram uma constante, hoje primeiro ouço para depois… falar.

De gaiata neste deserto, tenho ficado na espreita, como um gato sabido observando a melhor oportunidade para o ataque. Até que semanas atrás, fui abordada num português de ésses sibilantes por uma moça alta que me perguntava “Você é brasileira?”. Era dia de festa na escola das crianças e uma dupla de escoceses tocava gaita de fole (???). Tudo parecia tão estranho quanto tomate com marsmellow, mas a conversa estava animada e o coração quentinho pela abordagem da minha nova amiga paulista. Se tivesse acabado por aí já seria ótimo, mas teve ainda mais. Depois de me perguntar onde morava, ela ofereceu carona já que estava indo naquela mesma direção. No caminho, enquanto as crianças no banco de trás faziam aquilo que se espera delas, me explicava que toda quinta-feira uma outra brasileira oferecia aulas voluntárias de “cultura brasileira” para crianças. Neste período, as mães trocavam experiências e tomavam café com bolo de fubá e nacos de goiabada. Parecia miragem no deserto.
O conceito é simples e genial. Chegando lá (detalhe, a casa é no meu condomínio), me deparo com a simpatia da dona da casa e idealizadora do projeto e cerca de 10 mães brasileiras com filhos entre 1 e 13 anos. As aulas são curtas e temáticas. Seguem o calendário brasileiro e enfatizam datas comemorativas, folclore, história e geografia. Tudo muito lúdico e despretensioso.
Naquele dia o tema era o aniversário da cidade de São Paulo. Enquanto os pequenos coloriam a cidade no mapa, os mais velhos respondiam questões mais aprofundadas.
Gostei de conversar com aquelas pessoas, tão “minhas”. Gostei de ouvir seus sotaques, olhar seus sapatos, as unhas, o brilho. As crianças estavam à vontade, “de volta”…
Saí de lá pensando que Antônia e João são brasileiros, mas não vivem mais lá. Hoje, moram aqui, absorvem o que é daqui, mas a aqui não pertencem… Que terceira cultura sai daí?

Comentários

Comentar