E você? Tem algum preconceito?

Assunto espinhoso esse. Afinal, ninguém tem preconceito, não é? Ou sim? Para terminar nossa história sobre como por fim escolhemos a escola para Hugo, tivemos que lidar com esse tema tão difícil e encarar de frente onde estão e até onde vão os juízos de valor que formamos sem nos dar conta.

Para matricular uma criança em um colégio público espanhol você não precisa ter um “quem indica”, mas necessita ter pontos. Teoricamente se poderia pedir uma vaga em qualquer colégio da cidade, mas sem pontos é quase impossível conseguir a matrícula. Se consegue da seguinte maneira: viver ou trabalhar em um raio de 1 km da escola são 7 pontos; ter um irmão na escola, 7 pontos; ter três filhos ou mais, 3 pontos; a criança ter algum tipo de deficiência, 3 pontos, etc. O que eles querem com isso é incentivar que a criança estude perto de casa, que os irmãos vaiam juntos, privilegiar que tem mais filhos e a integração. Correto, mas no nosso caso só poderíamos contar com os pontos de proximidade do colégio. No final das contas, escolher onde morar determinará em que colégio a criança vai estudar.

Vivemos em um típico bairro de classe média que conta com três bons colégios públicos e nenhum privado. Na época de matrícula, as escolas promovem jornadas de portas abertas para os pais conhecerem o projeto, o diretor, professores, etc. Visitamos os três e escolhemos o Jeronimo Zurita como primeira opção. O projeto educacional dos três é exatamente igual e nos decantamos por este porque é o único bilíngue inglês/espanhol, a comida é feita no local (os outros usam catering), tem um espaço físico maior, uma associação de pais muito ativa e fomos com a cara do diretor. Estava super feliz com a escolha, mas sempre que contava para alguém do bairro nossa decisão, a resposta era sempre a mesma:

¨_ Ao Zurita? Os três colégios são ótimos, muito parecidos…¨

Aí a pessoa baixava a voz e sussurrava:

“_ Nesse colégio estudam os ciganos.”

Era um aviso: não mande teu filho para esse colégio. Ele vai estudar com ciganos.

Não existe etnia que sofra mais preconceitos na Espanha que a cigana. Uma total contradição, já que o que mais se conhece da cultura espanhola no exterior é o flamenco, a expressão maior da arte cigana. Eu, que sempre me considerei uma pessoa sem preconceitos, comecei a me preocupar. Seria tão mal assim que Hugo tivesse amigos ciganos? Só de pensar isso passei a me sentir péssima, uma racista,  que para mim é a palavra mais feia que existe. Mas enfim, é a educação do meu filho que estava em jogo. Então, a saída foi conversar e me informar. Porque conversando vimos que para alguns pais (uma minoria) o preconceito não está reservado apenas para os ciganos, mas também para os demais estrangeiros de forma geral. Na reunião com o diretor, um pai perguntou abertamente:

“_Quantos estrangeiros vêm para esse colégio?¨

Opa, isso inclui a mim! O fato de ter título universitário, master, de não ter vindo em busca de uma vida melhor (bem, a gente sempre quer isso), mas de um projeto de vida a dois (agora a quatro), eu não deixava de ser uma imigrante como qualquer outra. Então, isso também é comigo.

Abrindo um parêntesis sou obrigada a afirmar que jamais sofri diretamente qualquer tipo de preconceito ou discriminação na Espanha. Nunca! Ao contrário de toda a confusão nos aeroportos nos fazem pensar, os espanhóis gostam dos brasileiros. Fecha parêntesis.

Então, se eu não quero sofrer preconceito, também não posso ter. Isso é básico. Eu e Nacho continuamos conversando, principalmente com outros pais que já têm filhos nesse colégio. Todos foram unânimes em defender a escola. Confiamos nesses pais, na nossa intuição e estamos muito felizes com a escolha.

E sim, Hugo tem dois amiguinhos ciganos. E um russo, dos romenos, um marroquino… . Espero que ele aprenda que ser diferente é bom e que não tenha a menor ideia do que é ter preconceito na vida.

Passeio de bicicleta, uma das muitas atividades para pais e filhos organizadas pela Associação de Pais da escola de Hugo.

Passeio de bicicleta, uma das muitas atividades para pais e filhos organizadas pela Associação de Pais da escola de Hugo.

Se alguém tem curiosidade em conhecer mais o colégio, os deixo a página web: http://cpjzczar.educa.aragon.es/

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