Com saúde nao se brinca

O inverno de 2012/13  foi muito ruim aqui em casa. Hugo teve três bronquites seguidas, numa delas se somou uma pneumonia e ele teve que ser hospitalizado. Cinco dias horrorosos, em que descobri por primeira vez o autêntico significado da palavra medo. Também angustia, pena, enfim…. Além disso, Carol, com apenas oito meses, de uma hora para outra, teve que se acostumar com a mamadeira, para que eu ficasse com o irmão no hospital.

Mas no meio de tudo isso, pudemos contar com um ótimo atendimento médico. Hugo foi internado no Hospital Miguel Servet, o maior e melhor de Aragón. Tinha um quarto só para ele, com uma mesa pequena para comer e desenhar. Pese a rotina militar das enfermeiras, foi muito bem cuidado por todos. Quanto nos custou? Nada. Hospital público. Nem os remédios pagamos. Ou melhor, pagamos com nossos impostos. A única coisa que compramos  foi o nebulizador para casa. Não temos plano de saúde privados. Confiamos e usamos a medicina pública e, embora tenha minhas críticas ao sistema, em especial ao atendimento ao parto (será outro post), estamos absolutamente satisfeitos.

O sistema funciona do seguinte modo: ao alugar ou comprar uma casa, você se inscreve na prefeitura que te dá o teu comprante de residência. Com esse documento, você vai até o centro de saúde mais perto da tua casa e escolhe um médico para ti e um pediatra para as crianças. Para qualquer coisa, de unha do pé encravada a dor de cabeça, primeiro você tem que ir ao teu médico de família ou ao pediatra. No caso das crianças, ao Dr. Gallego, que cuida dos dois desde o nascimento. Para pedir uma consulta, basta telefonar. Para as crianças, normalmente te dão hora para o mesmo dia, para os adultos é mais comum que te deem para o dia seguinte. Se o problema é nos fins de semana ou de madrugada, vamos à emergência do hospital e aí a espera costuma ser de uma hora mais ou menos (minha experiência pessoal). Às vezes um pouco mais.

Podemos ir ao médico quantas vezes queiramos e ele decide se pedirá algum exame ou se nos encaminhará a um especialista. Dependendo da gravidade, a consulta com um especialista (otorrino, gastro, etc.) pode demorar algumas semanas ou pode ser no dia seguinte, se é urgente. As consultas com o Dr. Gallego nao duram mais de 15 minutos e nós nao temos uma relaçao de amizade com o pediatra dos nossos filhos. Amistosa sim, mas nao de proximidade. Eu nao tenho seu telefone, nao posso ligar para ele se os meninos têm febre de madrugada( uma das minhas irmas é pediatra no Brasil, numas férias fomos a uma reserva ecológica no Mato Grosso, lugar onde nao tem cobertura de celular, para que ela pudesse realmente descansar, e uma mãe conseguiu encontrar-la pelo rádio do barco). Quando Hugo estava no hospital, seu pediatra me telefonava para saber a evolução, jamais o contrário. Também nao tenho a opção de escolher um pediatra homeopata ou tratamentos mais alternativos. É verdade que Dr. Gallégo nao receita remédios à toa, mas são todos alopatas.

Cinco dias depois, na véspera do Natal de 2012, por fim levamos Hugo para casa. De todos os momentos ruins que passamos, o que realmente quero lembrar é da cena em que lhe conto podemos ir embora, e ele arranca o pijama do hospital e sai correndo pelado pelo corredor. Consegui alcançá-lo quase no elevador. Umas boas gargalhadas para espantar o medo. E para aumentar a certeza que a verdadeira democracia só se alcança com saúde pública decente para todos seus cidadaos.

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Miguel Servet, médico aragonês, que descobriu o sistema circulatório no século XVI. Coisa que nao fez muita graça a inquisição e ele teve que fugir para a Alemanha de Calvino. Mas os calvinistas também nao gostaram muito da novidade e afinal ele morreu na fogueira de todos os modos.

Comentários

  1. Bacana Rosane, muito bom poder ficar tranquila com saúde pública. Aqui também é bem melhor do que no Brasil, mas acho que não chega a ser como na Espanha. Já usei o hospital público, mas esperei 4 horas e meia para ser atendida e minha mãe, com mais de sessenta, tem enfisema pulmonar e estava com pneumonia, mas teve que esperar. Agora, quando chegou a sua vez, foi bem atendida. Outra questão aqui é o antibiótico, seja no hospital público ou no privado, (viemos com plano do trabalho do João) pisou no hospital, geralmente te receitam uma bombinha do gênero. Mas ainda assim, dá pra ter ficar seguro de que vc vai ser bem atendido. Acho que sofro mais porque sempre usei homeopatia para os meninos. Bento só deixou de ser alérgico depois da homeopatia. E isso eu procuro, sempre que posso, visitar uma médica antroposófica, das poucas que trabalham esta área por aqui.

    • Oi Bia,
      A saúde aquí é descentralizada, depende das comunidades autónomas, equivalentes aos nos sos estados. Entao nao é igual em todo o país. Em Aragón é bem melhor que en Madrid, por exemplo.
      Afinal curamos as bronquites do Hugo tirando un tempo da creche e Eva do suma semana para os Pirineus. Ar fresco e puro da
      montanha. Esse ano nao teve nem resfriado (toc, toc, toc)

  2. oi, este é o sistema existente no papel, aqui no Brasil, só que a saúde é gerenciada pelos municípios, pq a gestão é plena, o ministério da saúde faz o repasse direto para o município de acordo com o nº de habitantes, nº de profissionais e a complexidade médica existente, além deste repasse federal, o município, conforme a lei, no papel, tem que investir, pelo menos 10% da sua arrecadação. Onde se tem um prefeito bom, que não faz politica com a saúde e sim desenvolve politicas de saúde, o que é raro, a saúde funciona brilhantemente ….. O PROBLEMA DO BRASIL SOMOS NÓS, O POVO BRASILEIRO, PQ AS LEIS SÃO MARAVILHOSAS, SÓ RESTAM APLICA – LAS.

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