Aqui e lá

Todas as noites, o ritual de ir para a cama começa com livro e termina comigo cantando (pobres!) para as crianças dormirem. E canto de tudo um pouco: das tradicionais Se essa rua fosse minha, O cravo brigou com a rosa, passando pela Galinha Pintadinha e chegando nas músicas de gente grande, de Chico Buarque a Dorival Caymmi, às vezes até incluo no repertório marchinhas de Carnaval. Mas outro dia me ouvi cantando o Hino da Bandeira! Assim sem mais, nem menos!

“Recebe o afeto que se encerra

                                                  No nosso peito juvenil

                                                  Querido símbolo da terra

                                                  Da amada terra do Brasil”

Depois fiquei rindo sozinha da patriotada, porque aqui em casa não somos dados a essas coisas. Não tenho bandeira do Brasil, nem camisa da seleção (comprarei uma para a Copa), não conto por aí “eu sou brasileira, com muito orgulho, com muito amooooor!!” Então, imagino que o hino da bandeira se deve à saudade que sempre chega junto com o Carnaval. Porque o Natal, algumas vezes, passamos no Brasil. Eu tenho duas semanas de férias, é uma delícia sair do frio e aproveitar o verãozão. Mas no Carnaval nunca vamos. Aqui nem feriado é, então, nao dá para abandonar o trabalho. Aí descubro que embora nunca tenha sido muito carnavalesca, chegando inclusive a ter odiado essas festas quando era obrigada a trabalhar 14, 16 horas no sambódromo do Rio, que sim, sou muito brasileira sim senhor!

Quando mudamos de país passamos por várias fases. A primeira é de encantamento com o novo lugar. Tudo é novidade e tudo é muito melhor que no lugar de onde viemos. Quando passa o encantamento incial, chega a saudade e a coisa se inverte. Aqui tudo passa a ser pior. E começamos a buscar outros compatriotas para compartilhar as ausências, para falar mal do país que nos abriga e qualquer goiabada passa a ser uma iguaria. Na voltas das férias, voltamos com a mala carregada de castanha de caju, Mate Leao, biscoito de polvilho, cocada, revista Caras, etc. Aí, de repente tem um dia em que você se vê em um salão de beleza brasileiro, tentando fazer a mão e o pé, ouvindo música sertaneja no último volume e o computador ligado na Ana Maria Braga e você tem a certeza que o inferno existe! E em outro momento, você que todo domingo à noite se sentia melancólica porque não podia ver o Fantástico, viaja para o Brasil e não suporta nem o Fantástico, nem as novelas, nem sequer o Jornal Nacional (que horror de jornal!). É o fim da segunda fase.

A terceira fase é quando a questão “onde estou” é superada. Os amigos buscamos não pela nacionalidade e sim por afinidades. A mala continua voltando pesada das férias, mas agora traz somente livros e filmes. Além de biquinis, a única coisa que é impossível comprar aqui. Manicure só tem sentido no Brasil. Não vejo tv por internet. Mas continuo lendo os jornais brasileiros diariamente. Vicio de jornalista e para acompanhar as conversas no facebook. Você se sente cada vez mais distante dos “conhecidos” e cada vez mais próxima dos “amigos, amigos”.  A realidade deixa de ser metade lá e metade cá e passa ser somente aqui e agora. Que, segundo meu mestre maior, Gilberto Gil, é o melhor lugar do mundo.

A saudade então se aproveita da chegada do Carnaval para criar um bloco e desfilar pela casa. Para lembrar que ainda é inverno, que no Brasil estão todos em uma enorme loucura “que não há ninguém que explique, nem ninguém que não entenda”. (perdão Cecília Meireles!). Ainda bem que a quarta-feira de cinzas trairá março e março traz a primavera com ele. Essa noite cantarei para as crianças Back in Bahia (Gil, sempre Gil):

   “Ilha do Norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar
Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo, de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”.

Vai que é tua, Gil:

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