A melhor escola

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Hugo, atrás da menina de “maria-chiquinha”, no seu primeiro dia de escola.

Desde pequena sempre ouvi dos meus pais a seguinte frase: “a única coisa que te deixaremos de herança é a tua educação.” E assim foi. Fizeram enormes esforços econômicos para dar a mim e minhas irmas a melhor formação possível.  Para eles sinônimo de uma boa escola era um colégio “puxado”. Exigente. Aquele te que permitisse entrar na sonhada universidade. Pública, obviamente. Mas quando chegou a minha vez de escolher um colégio para meu filho, eu não tinha (tenho) as mesmas certezas que meus pais. O que é exatamente uma boa escola? Que tipo de escola sonhamos para nossos filhos? Uma que lhes prepare ao máximo para passar no vestibular? Ou uma que respeite mais o seu tempo, que dê tanto valor à arte quanto à matemática? Ou ainda, uma que lhes possibilite boas relações sociais para que no futuro consigam boas indicações para bons trabalhos, pois tudo na vida depende mais do teu “network” que propriamente de tuas habilidades (teoria que já ouvi da boca de mais de uma pessoa)? Então, qual é melhor para nossos filhos?

A educação formal na Espanha começa no mês de setembro do ano em que a criança completa três anos, nao importando se ela faz aniversário em janeiro ou em dezembro. Hugo nasceu no dia 21 de novembro de 2010, portanto em setembro passado ele entrou para a escola com 2 anos e 10 meses. Só não é o mais novo porque tem uma menina que nasceu em dezembro. Mas é evidente a diferença dele para os meninos e meninas que nasceram no primeiro semestre. São quase um ano mais velhos. Escolhemos para ele uma das escolas públicas do nosso bairro a Escuela de Educación Infantil y Primaria Jeronimo Zurita. Não foi uma decisão fácil e, embora estejamos felizes com o colégio, sempre me assalta a dúvida se fizemos uma boa escolha e quais alternativas temos.

Porque nos meus sonhos a escola ideal seria assim: um colégio em que aprender fosse um prazer, que respeitasse o estado emocional de cada criança, que ensinasse o valor da música, da pintura, do esporte e que, quando chegasse o momento, fosse exigente com as notas, com o resultado acadêmico (não dá para esquecer de onde venho, não é?). Imagino que essa escola deva existir em alguma parte, mas não é a realidade que encontramos por aqui.

Em Zaragoza existem três tipos de escolas: a pública, em que a  única coisa que se paga são 90 euros mensais pelo almoço (existe a possibilidade de pedir uma bolsa ou a criança pode sair para comer em casa e voltar). A privada “concertada”, que são escolas privadas subvencionadas pelo governo, onde os pais também não pagam nada além da comida e do uniforme (a pública não tem uniforme). Estas escolas são 100% de ensino religioso, embora o governo afirme que poderiam ser de qualquer religião, na verdade são todas católicas. E por último estão as escolas privadas propriamente ditas, na sua maioria estrangeiras. A escola britânica, alemã, francesa, etc. Além destas, existem as escolas privadas mais elitistas de todas: as mantidas pela Opus Dei, uma para meninos e outra para meninas.

De saída descartamos o ensino religioso para nossos filhos. Nacho é ateu e eu, embora tenha minhas crenças, me assusto com o extremo conservadorismo da Igreja Católica espanhola. Aqui nao existe a Pastoral da Terra, Pastoral do Menor, muitíssimo menos a Teologia da Libertação. As de ensino estrangeiro estão fora do nosso orçamento. A única que se encaixaria seria o Liceu Francês, mas pensamos que os meninos já aprendem duas línguas, meter uma terceira, que nem eu, nem Nacho falamos, seria criar problema. Então, sem outra possibilidade, escolhemos a pública.

Escolha que dará para muitos posts mais, pois este aqui já está ficando muito grande. Não se pode comparar uma escola pública espanhola com as escolas públicas brasileiras, com suas honrosas exceções. Uma escolha que espero proporcione a Hugo e a Carol, quando chegue a sua vez, a melhor educação possível, pois nesse ponto os pais somos todos iguais.

Comentários

  1. É uma escolha dificílima mesmo. Eu, que tenho um já com 16 anos e que não sabe ainda muito bem o que quer da vida, fico me perguntando se fiz a escolha certa há nove anos quando o coloquei na escola de aplicação da PUC-RJ.
    Mas quem sabe o que quer aos 16? Eu acabo de descobrir aos 41 que tb não sei bem ao certo…

    O que mais me impressiona são as angústias criadas em nossas cabeças de que essas escolhas têm que ser cedo e que são definitivas. Vejo mães de crianças de dois, três anos aqui no Brasil preocupadíssimas porque os filhos não foram sorteados naquele ou no outro colégio, os melhores no ranking do Enem. Uau.

    Ok, respeito. Ou tento respeitar. Mas quem disse que essas crianças terão que ficar nessas escolas para sempre? Será que elas serão felizes? Curtirão a escola? E se não se adaptarem?

    Enfim, a escolha é difícil e tem sido, aqui no Brasil, cada vez mais antecipada. E como se fosse a única opção e definitiva.
    Uma sandice, na minha reles opinião e experiência de mãe de três seres completamente diferentes uns dos outros…
    bjooo e boa sorte nas suas angústias que são as minhas tb

  2. Exatamente Raquel! Muitas vezes se escolhe uma escola usando critérios que já nao tem muito sentido nos dias atuais. Quem disse que só se será feliz entrando na melhor universidade? E até lá, você tem que conviver em uma escola em que a criança (ou os pais) nao se adaptam só para cumprir essa expectativa?
    Enfim, continuarei esse post contando porque afinal nos decidimos por essa e nao por outra escola pública.
    Beijos!!!

  3. Rosane, esse é um dilema de todos nós. Quando morei em São Paulo, estranhei o fato de sempre me perguntarem onde estudei ou onde minha filha estudava (ela tinha uns dois anos na época). Era “muito prazer, meu nome é Lívia”. “Onde você estudou? E a sua filha, está em que escola?”
    Só que eu mudei de colégio um monte de vezes. E talvez minhas filhas façam o mesmo. Mas, onde escolher a que melhor se encaixa com elas?
    Meu primeiro ano no Sul foi complicado com a mais velha. Foi trocar de colégio e ela desabrochar. Dois aos depois, cá estamos num colégio diferente. Felizmente, elas estão amando.
    Mas, sempre fica aquela pulga atrás da orelha. Onde elas irão estudar no Brasil? E o Enem? E se elas fizerem faculdade fora?
    Difícil, né?!

    • Oi Lívia,
      Enem, faculdade, tento não pensar ainda. Muita água vai rolar. E como você também não creio nessas definições que muitos fazem pela origem, já com pre-julgamento. Como se garantia de filho feliz fosse ele entrar na faculdade de engenharia ou medicina. Enfim, pouco a pouco.

  4. Nossa Rosane, esse post dá pano para a manga. Eu vivo um dilema imenso em relação à escola dos meninos. Já passei por Waldorf e foi péssimo para um e é incrível para o outro. O mais velhor já está em outra escola que, a princípio, nunca achei que pudesse vir a escola para um filho meu, mas tive que rever meus pré-conceitos. Não consigo acreditar que exista um sistema ideal formatado para educar crianças em geral. E mais, descobri que alguns podem fazer um baita sentido como tese na cabeça dos pais e depois não serem instigantes o suficientes para a criança. O mundo está tão complexo. O sistema capitalista tão fragilizado (ainda bem), acho que a gente tem mesmo que seguir com as antenas muito ligadas neles. E respirar pensando que as hipóteses de profissão e realização podem e devem ser diferente do que as que tivemos. Mas ainda assim, dá um frio na barriga danado. Acho que essa questão merece um post. É um bom tema. Beijos.

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