A escola de cada um

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Semana passada, Rosane Marinho postou um texto aqui no blog que me fez pensar a semana toda e por isso resolvi contar um pouquinho sobre a aventura de escolher a escola das crianças.

Em Portugal, como na Espanha, existem algumas boas escolas públicas. Escolas que inclusive pessoas com boas condições de renda se formaram e seguem colocando seus filhos. Mas com a realidade da crise financeira, conseguir vagas parece que virou um privilégio de fulano que conhece beltrano. E, como este não é o nosso caso, recorremos desde o princípio, às escolas privadas.

Assim que soubemos que viríamos para cá, começamos a escolher uma escola à distância, porque era maio e já havíamos perdido o prazo de matrícula para o ano letivo, que aqui começa em setembro. Pegamos referências com amigos, mandamos emails para várias e acabamos nos decidindo por uma escola pequena, perto de casa. Quando chegamos marcamos uma reunião com a “excelentíssima senhora diretora” (era assim que se referiam a ela em nossas correspondências. Aqui são muito mais formais no tratamento). Na conversa, que durou mais de uma longa hora, ela me encarava com olhar incisivo a falar da escola, de seu funcionamento, da reza matinal, da missa, da primeira comunhão e entretanto discursava muito, mas muito mesmo, sobre a disciplina e a displicência dos pais de hoje, que não estavam preparados para educar seus filhos. “Aqui na minha escola, todos aprendem a disciplinar os filhos.”.

Bom, eu sei que disciplina é importante para a gente construir qualquer coisa na vida, mas esse não pode ser o foco de uma escola. Saí de lá com a certeza de que nunca mais veria o dinheiro que tínhamos dado para a matrícula e com uma urgência danada em achar uma escola que tivesse a ver com o nosso jeito de encarar o mundo.

Então Bento foi para uma escola Waldorf, no meio de uma floresta. As crianças plantavam, colhiam, comiam frutas e verduras tiradas do quintal, iam para o mato pegar troncos para fazer fogo e afastar o frio, conviviam com bichos, aprendiam a construir móveis, tinham muita música, roda, contação de história, arte. A escola oferecia um verdadeiro detox das informações tecnológicas, pré-formatadas e aceleradas dos tempos atuais. Na nossa cabeça, era um privilégio oferecer essa infância com cara de fazenda para o Bento. E ele gostava da escola, dos amigos e das professoras, mas eu chegava para buscá-lo e perguntava: “e então filho, como foi seu dia? O que vocês fizeram?” E a resposta variava em torno do mesmo tema. “Foi bom. Almocei, tomei lanche e hoje era dia de bolo.”.  Não via o Bento muito entusiasmado com as suas atividades. E depois de um ano, comecei a me questionar. Será que o que eu achava ser bom era mesmo o ideal para ele?

Um dia, em conversa com uma amiga brasileira, que criou seus filhos (hoje dois adultos), em escola Waldorf e ela abriu seu coração: “Bia, essa escola foi fantástica para um deles. Mas para o outro, se pudesse voltar no tempo, teria vasculhado outras escolas que tivessem em sintonia com o perfil do meu filho. Acho que ele nunca se encaixou por ali e lembra disso até hoje.”.

Entendi o recado. Tentei acertar e não deu certo. Aquela era a escola dos nossos sonhos, mas ele precisava de outras coisas. Corrigimos a rota.

Hoje Bento estuda em uma escola tradicional de Lisboa, e contrariando tudo o que sempre imaginamos, vai para a escola de gravata e sapatos. O pai é publicitário, criativo, trabalha de tênis, jeans e camiseta e só tem um terno, que usa em festas de casamento. Mas nós gostamos do projeto de ensino, da harmonia das crianças em sala de aula, das educadoras, da diretora e para completar, apesar de ser tradicional, a escola é laica e eu não fui obrigada a colocar meu filho na catequese (sobre religião, falamos depois). Agora Bento acorda todos os dias da semana pensando nas aulas que virão. Ele quer aprender, ser instigado, precisa de informação e estímulos, sabe de cor o calendário das aulas da semana e espera pelas matérias preferidas: inglês e música.

Já Vicente adora a sua creche Waldorf e decidimos separar os dois, pelo menos por enquanto, já que não conseguimos conceber colocar gravatas e sapatos em um ser que mal aprendeu a se expressar. Nosso caçula é livre como uma criança de roça e apesar de acompanhar a vida urbana, globalizada e antenada da família e compartilhar com o irmão a paixão por filmes, músicas e livros, orbita um mundo cheio de imaginação, simbolismo, sonhos, natureza e simplicidade. Hoje é fã de tabalhos manuais, e muito atento a tudo que falamos, corrige as minhas confusões entre parafusos e pregos “não mamãe, prego a gente bate assim” segurando o martelo imaginário que batia na mesa e complementou “parafuso a gente vira assim” gesticulando como se tivesse a segurar a chave de fenda e rodar uma peça.

No meu dia-a-dia isso às vezes é uma grande confusão. São duas escolas, dois estilos pedagógicos distintos, duas negociações nos preços e o mais importante, rico e inevitável, são duas crianças completamente diferentes que vieram expandir nosso universo. Fácil não posso dizer que seja, porque não é, mas hoje sinto que temos bons parceiros para nos acompanhar nessa fase de tanto desenvolvimento dos meninos. Só não sei até quando, porque os dois andam querendo estudar na mesma escola, o que faz todo sentido. Mas Vicente não será facilmente domado pela gravata e Bento não abre mais mão de suas aulas de inglês às sextas-feiras. Mas isso é um outro capítulo.

PS: aqui vai o link para o post da Rosana da semana passada. Vale dar uma olhada. http://maesemrede.wordpress.com/2014/02/14/a-melhor-escola/