Nao, nao temos babá

Essa é  a resposta para a pergunta mais frequente que me fazem nas férias no Brasil. Nao por amigos ou família, esses nos conhecem, mas por conhecidos e mesmo desconhecidos que puxam assunto na piscina, praia ou qualquer sala de espera. A reaçao é sempre de olhos arregalados, seguidos da pergunta: “e como vocês fazem?”. Quero deixar claro que nao tenho nada contra babás e quem usa esse tipo de serviço, inclusive nutro certa inveja. E nao temos pela razao mais simples de todas: nao podemos pagar. E nao somos só nós que nao podemos, nao conheço quase ninguém que possa. Mesmo as pessoas que conheço que poderiam ter esse autêntico luxo, nao tem, porque  nao pegaria bem. Seria uma demonstraçao de esnobismo tao grande que chocaria com o resto da sociedade. 

Em nove anos na Espanha, conheci somente uma babá. No meu primeiro ano por aqui, cursava espanhol na escola de idiomas e fiz amizade uma menina sérvia, que trabalhava como “au pair” para um casal de médicos. O casal, por causa dos horários dos plantoes, necessitava alguém para dormir. A cada quatro meses, traziam estudantes de espanhol para cuidar de duas meninas. Os contratos sao de seis horas diarias, nao podem interferir nos horários de estudo  e incluem hospedagem e alimentaçao. Além do salário, é claro. Enfim, uma verdadeira categoria “luxo e ostentaçao”.

E como a gente faz? Pois com muita colaboraçao e divisao equânime de tarefas entre as duas partes do casal, com a ajuda inestimável de uma avó sempre disponível e participaçao fundamental de uma creche e escola em tempo integral (9h às 16h30). É fácil? Claro que nao! Mas nunca achei que criar a dois pequenos de três e um ano fosse fácil de todos os modos. A nao ser que os pais decidam delegar essa responsabilidade a outra pessoa. Na sala de espera do consultório de um pediatra na Zona Sul do Rio, pergunto para uma mae.

“-Quanto tempo tem a tua filha?”

Ela se vira para a babá:

“-Quanto tempo ela tem mesmo?”

O dia a dia é corrido como em qualquer lugar, a diferença é que os pais têm uma participaçao ativa e uma presença em todos os momentos. Querendo ou nao. Quantas vezes me perguntei se seria uma mae mais paciente se nao tivesse que cuidar de tantas coisas ao mesmo tempo…mas enfim, como dizem os espanhois “es lo que hay”, que é uma forma de entender que nao podendo ser de outra forma, nao tem sentido ficar imaginando o contrario. Adoro essa praticidade!

Vantagens de nao ter babá: crianças começam a ser indenpendentes bem antes. Hugo come sozinho desde ano e meio e Carol vai pelo mesmo caminho. Ele agora está super orgulhoso por saber vestir e fechar seu casaco, por ir ao banheiro sem ajuda, enfim, grandes conquistas para ele e para todos nós.

A outra vantagem da quase inexistência de esse tipo de serviço doméstico nao vemos ao principio, mas também sentimos no cotidiano. Que é viver numa sociedade mais igualitária e menos elitista.

Comentários

  1. Rosane, nutro inveja de uma escola integral e gratuita e de qualidade! Tb não quis babá e os horários, o trânsito e os preços das creches (mínimo de R$ 2 mil a integral na Zona Sul) me trouxeram muitos questionamentos. E decidimos mudar pra SP onde temos todos os outros problemas, mas contaremos com minha mãe e meus irmãos pra ajuda inestimável. Filhos mudam a vida mesmo. Bjs pra vcs!

  2. Milena, a escola é pública, mas a creche não. Apesar disso, é bem mais barata que no Rio ou Sampa. Creio que a classe média brasileira está numa encruzilhada, pois os serviços domésticos estão cada vez mais caros, sem ter a contrapartida do estado com escola pública decente.
    Boa sorte na nova vida em São Paulo e sim, com filho, nada será como antes. Beijos nessa gostosa!

  3. Sou mae de primeira viagem no Brasil e todas a maioria das minhas amigas falaram que eu “precisava” de uma enfermeira pelo menos por tres meses. A Dora esta com 29 dias e confesso que estou tendo uma grande dificuldade de me adaptar com essa pessoa que passa 5 dias por semana aqui em casa. Senti, em especial no inicio, que aquilo limitava minha intimidade com minha filha, ate porque eu gosto de trocar as fraldas, dar os banhos, por para dormir… Mas nao tenho familia perto, nenhuma avo para recorrer, e por isso ainda nao abri mao do apoio. Mas ja me decidi a fazer a experiencia de nao ter uma babá após esse período… Seremos eu e Dora, nossa dinâmica, nossa vidinha.

    • Oi Renata,
      cuidar de um bebê nao é mole nao, incrível como algo tao pequeno pode ocupar tantas horas!! Com ajuda nos estressamos menos, estamos mais seguras, mais confiantes. Nada contra, muito pelo contrário. Minha única crítica vai para quem decide, pela razao que seja, se omitir da criançao do filho, deixando tudo na mao da babá.
      Você vai ver o quanto aprenderás esse primeiro ano e tudo, pouco a pouco, vai ficando mais fácil.
      Obrigada por passar por aqui!

  4. Rosane, estou completamente sintonizada contigo. O que mais me choca são as babás uniformizadas no teatro, nos shoppings, nos pediatras, nas festinhas… sabem mais sobre as crianças do que os próprios pais. Uma pena…

Comentar