Criança, bicho cada vez mais raro

Na Espanha o sistema educacional é bom e grátis. O de saúde também. As cidades têm uma dimensão humana e o trânsito é aceitável. Comparado com o Brasil, os índices de violência são ridículos. Ótimo lugar para ter filhos, não? Pois não. Se fosse, a Espanha não teria uma das menores taxas de natalidade de toda a Europa (1,3 filhos por mulher). Em 2012 nasceram 17 mil crianças menos que em 2011 e, se continua essa tendência, em 10 anos perderá 2,6 milhões de habitantes   ( matéria do El Pais sobre o tema http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/11/22/actualidad/1385116136_834455.html).

Como todo problema complexo, não tem uma única causa. A primeira é sem dúvida a crise econômica onipresente. Com 26% da população desempregada, ninguém, ou quase ninguém, pensa em ter filhos. Crianças nascem em épocas de otimismo. Aqui atualmente o pessimismo está em todas as casas. Mas em períodos de bonança a taxa de natalidade já era baixa. Porque essa questão também tem outras razões: como a ausência de ajudas estatais para a maternidade e a complicada conciliação dos horários de trabalho com os  horários escolares. É incrível, mas a famosa “siesta” espanhola é uma das causas, pois esse intervalo de três horas (!) na metade do dia (aqui entre às 14h e às 17h quase nada funciona), faz com que os horários de trabalho se alonguem até às 20h, mas as crianças saem do colégio às 16h30. Sem ajuda é bastante complicado. Muitas mulheres terminam por deixar de trabalhar para poder cuidar da prole. E cada vez há menos mulheres dispostas a isso.

As consequências também são várias e afetam a muitos aspectos da sociedade. Tanto econômica, quanto socialmente. No que nos diz respeito, tenho observado várias coisas na convivência com os dois pequenos. Primeiro, no Brasil meus filhos têm nove primos de primeiro grau. Aqui nenhum. Nem de segundo grau. Netos únicos, sobrinhos únicos. Sinto certa pena, na minha infância meus melhores amigos eram meus primos… E  ao mesmo tempo  que as crianças são vistas como algo especial, a sociedade tem cada vez menos paciência e compreensão com elas. Já tive vizinho tocando a campainha às 3h da manhã porque Carol chorava quando saiam os dentes. Restaurante então evitamos. Cansei de cara feia porque os meninos falam alto e descem da mesa antes de terminar de comer. Amigos sem filhos desapareceram do nosso convívio, mais ou menos como se em vez de crianças tivéssemos adquirido a peste. 

Enfim, creio que a Espanha nos próximos anos terá que encarar de frente esse problema, enquanto isso vamos rebolando para conviver de forma pacífica com o resto da sociedade.

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Quando cliquei esse livro sobre as escolas rurais de Aragón, essa menina era a única estudante na terceira série na cidade de Letux. Só no ano passado, sete colégios fecharam por falta de crianças.

Comentários

  1. Rosane, na França o mesmo fenômeno começou há alguns anos e o governo passou a incentivar a população a ter 3 filhos com diversas vantagens fiscais. Será que essa é a solução para a Espanha?

    • Oi Lívia, aqui já tem esse tipo vantagens. Com três filhos a pessoa passa a ser “família numerosa” e além de pagar menos impostos, tem descontos em supermercados e até em cinemas. Não são suficientes. Creio tudo passar em permitir a mulher conciliar trabalho e casa. Licenças maternidades mais longas, mais flexibilidade nos horários, mais creches públicas, etc. E, principalmente, o fim da crise econômica.

      • É, neste aspecto, aqui também está bem complicado. Muita gente indo embora fazer a vida em Angola, Brasil e afins. Os jovens já tem que sair da faculdade para empreender, ou sair do país. Uma pena, uma grande pena.

    • Oi Ana Paula,
      nao creio que seja (apenas) egoísmo. É mais falta de traquejo mesmo. Muitas mulheres nunca conviveram com uma criança até ter o primeiro filho.

  2. Se já é super chato viver algumas experiências com gente que não curte crianças em restaurantes e aviões, imagino ter que lidar com esse olhar de estranheza no dia-a-dia…

  3. É estranho mesmo, porque no Brasil as crianças sao sempre bem recebidas. Aqui nem todas as vezes. Com relaçao aos avioes, tem uma polêmica porque algumas companhias aéreas querem implantar aqui o que já fazem algumas asiáticais: proibir criança em algumas filas, tipo entre a 5 e a 10 nao pode sentar menor de idade. Combrando mais caro de quem queira sentar aí, é claro. A soluçao é se refugiar na tribo dos “com filhos”.

  4. Oi Rosane, confesso que fiquei surpresa ao ler seu relato. Não tinha essa percepção do pessimismo espanhol, sabia que a taxa de natalidade não estava lá essas coisas, mas quem está fora sempre vê as coisas com outros olhos. Como somos vizinhas, vez ou outra, atravessamos a fronteira. E sabe o que mais me atrae pelos seus lados? O astral do espanhol, que apesar de também estar em crise, parece um povo vivaz, que anda pra frente, que vive mais para fora, que sai de casa com as crianças, mesmo tarde da noite e que estranhamente parece ter mais crianças do que aqui. É claro que a realidade é bastante dura, mas a minha sensação é de que o espanhol reage mais. Mas é sempre uma questão da referência do que vemos ao redor. Outro dia, uma amiga que já viveu em MAdrid e hoje está aqui, voltou para visitar os amigos e comentou comigo: “achei tão estranho ver a alegria do espanhol nas ruas que quase perguntei se tinha acontecido alguma coisa boa e eu não sabia.”. Para quem mora, o humor do cotidiano acompanha a crise, as notícias do jornal e as constatações da vida mais difícil? Ou o povo consegue, não digo ser positivo, mas olhar para frente, reagir? Aqui é raro ouvirmos um “Tudo bem.” como retorno quando cumprimentamos alguém. Normalmente “vai se indo”, ou “do jeito que dá.”. Ainda bem que, apesar do pessimismo, o povo é gentil e acolhedor. E os dias mais solares, não tão raros por aqui, também ajudam a ver o dia com bons olhos.

    • Oi Bia,
      o espanhol é um povo festeiro. Nesse ponto se parece ao brasileiro. Mesmo na crise, mesmo no frio, sábado à noite tá todo mundo na rua. Nem que seja só para uma cervejinha. Mas a crise está afetando a todos, gente que sempre teve trabalho, com experiência completando dois anos de desemprego (caso de dois amigos engenheiros), gente imigrando (um dos nossos melhores amigos aqui está de malas prontas para a Russia), lojas tradicionais fechando…. . A única indústria que prospera é o turismo (ano passado 60 milhões de visitantes) e isso também ajuda para que exista animação nas ruas. Mas no dia a dia estão (estamos) todos pessimistas, sem ver a luz no fim do túnel.

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