Até onde a corda estica.

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Em São Paulo trabalhávamos muito, mas meu escritório era em casa e o João ia caminhando para a agência. Ainda assim, para a engrenagem da casa funcionar, contávamos com as ‘fadas do lar’. Saíamos de cena e, ao voltar, os lençóis estavam passados, os sapatos largados pelo caminho tinham se encaminhado para dentro do armário, o almoço e o jantar estavam prontos e perfumados pelos temperos que saíam direto do nosso bem cuidado jardim.

Estávamos perto do Bento. Sempre estivemos lá para levar, buscar, almoçar junto, dar banho. E principalmente para terminar o dia com brincadeiras e chamar o sono. Mas havia ali um desconforto. Aquelas duas jovens que me ajudavam em casa tinham potencial, ainda podiam estudar, fazer faculdade, ter uma outra profissão. E apesar de nos admirarmos mutuamente e de termos uma rotina divertida, a relação era pacote completo, com dias de conversas monosilábicas e do mau humor que, vez ou outra, visitava os habitantes da casa. Era um ciclo de interdependência semi-saudável. Elas recebiam por esta entrega, mas dedicavam o melhor do seu tempo ao funcionamento da nossa vida familiar. E o nosso funcionamento familiar acabava por ser dependente de pessoas que, embora fossem muito queridas, não eram a nossa família e compartilhavam em excesso da nossa privacidade.

Lá pelas tantas, chegou a hora de ouvir o que meu coração tanto sussurrava. “Vai, vai viver isso. Vocês precisam.” Largamos aquela vida de mimos para irmos em família para a cozinha, vivermos o processo da carne crua se transformando em bife, do ovo batido com leite virar omelete, da escolha dos alimentos crus no mercado, e ainda, no meio do caminho, passarmos juntos pelo parque para brincar e tomar um “gelado”.

Agora, é importante dizer que o dia-a-dia não é o da família de propaganda dos anos 50, com a mãe sorridente de avental, cercada de crianças felizes a cantarolar durante a produção do jantar e a arrumação da casa. Pelo menos não no meu feudo. Aprendi muito, estou cada vez mais organizada para a coisa toda funcionar direito, e as crianças também aprendem o valor de guardar o brinquedo, sabem que a mãe precisa estar na cozinha para terem o que comer e  até o pai deles guarda mais os seus sapatos dentro do armário (desculpa João, mas não podia perder essa). Mas com a chegada do Vicente, uma nova energia invadiu a casa. Eles rapidamente aprenderam a puxar as cadeiras para acender o fogão e aproveitam quando estou ocupada na cozinha para fazer traquinagens pelo resto da casa. Não é mole, às vezes me pego entre gritos, descabelada e até eu me assusto.

E digo mais, quando cheguei, tinha uma visão mais romântica de tudo isso. Passei a me esmerar na produção de varais diversamente coloridos, contribuindo para os panos charmosos que balançam sob as janelas da ventosa Lisboa. Variavam entre tons de azul, preto, preto com vermelho, e outros brancos, quando ainda eram mais brancos. Também tive que aprender a tirar manchas, mas não sou boa nisso. E hoje, muitas vezes, tenho vontade de sair correndo na chuva quando olho a roupa que ainda tem que ir para o varal.

Mas já que tenho que fazer, faço. Tenho tido sorte e pude levantar a mão e pedir um pouco mais de ajuda. Experimentei, estiquei a corda e agora tenho mais consciência do meu limite. Estou longe de querer ser super mulher. Quero uma vida saudável. Procuro dar conta do que posso sem perder a energia para ser uma pessoa mais atenta, capaz de pensar, estudar, produzir. E ser uma boa mãe, uma amiga interessante, uma mulher com inspiração para namorar. Em Portugal (terceiro país no índice de desigualdade de distribuição de renda na União Européia – os primeiros são Letônia e Lituânia), existe gente disponível para fazer o trabalho doméstico alheio. Não chega a ser raro por aqui que as famílias tenham empregada de segunda a sexta. Os salários variam entre 500 e 800 euros por mês. Eu tenho ajuda em dois preciosos dias da semana. Neste caso, paga-se, em média, 7 euros a hora de trabalho.

Adelaide é brasileira e traz sempre sua “boa onda” para dentro de casa. Também trabalha na casa de outros amigos “brasucas” e adora o que faz. É bibliotecária formada, já trabalhou em universidade lá no Paraná, sua terra de origem, mas na verdade gosta mesmo é de agitar o corpo na arrumação da casa: “Tenho muita energia Bia, não consigo ficar parada no trabalho.”. Mais uma pitada de sorte que apareceu no meu caminho: ela vibra de orgulho com os seus afazeres domésticos enquanto eu suo horrores para ter a casa minimamente organizada.

Só espero que em futuras paragens a sorte continue me contemplando. Sei que se um dia fosse viver em Paris, por exemplo, a ajuda seria bem mais escassa. Mas quem sabe neste dia, o tempo já possa me dar dois filhos bem crescidos que separem a roupa colorida das brancas, que sigam o exemplo do pai e guardem os sapatos no armário e resolvam acender o fogão para finalmente preparar uma comidinha especial para a família. Quem sabe?

Comentários

    • Boa Livia, vamos pensar nessa poupança. Sabe que outro dia estava conversando com uma amiga psicóloga daqui que falou: “Qual o problema de perder a paciência? Essa é a realidade da vida. Filhos poupados hoje, frustrados amanhã.” Acho que ela tem um bom ponto.

  1. Adorei imaginar sua vida por ai Bia.. Me identifiquei com tantas coisas : a gente da mais valor quando sente falta – mas tem o outro lado da moeda que faz crescer muito estando fora do nosso pais .. Longe da nossa gente e família. A gente tem que “se virar” como pode.. Um beijo enorme cheio de sdds xxxxx

  2. Delícia de texto, Bia! Estamos vivendo mais ou menos a mesma coisa por aqui – a única diferença é que o charme do varal colorido dá lugar ao barulhão da secadora! Mas sabe o que tenho percebido? A rotina doméstica, com todos os tropeços e as emoções que ela inclui, possibilita um montão de aprendizados super úteis para a vida fora de casa também. Acho que no fim das contas viramos pessoas mais dinâmicas e mais equilibradas em todos os campos da vida. Beijo!

    • Bia, minha amiga querida… tenho lido seus textos…. vc sempre conseguiu traduzir EXATAMENTE o que é… até nos fazer sentir com todos as cores, cheiros, ruídos… passo por todos os sentidos e vivencio como vc traduz…. espetacular! Mta saudade… grande beijo

    • Oi Pri, que bom que você gostou. Vindo de você fico ainda mais feliz. É essa rotina de casa é uma dinâmica e tanto para o nosso desenvolvimento… E viva a vida vivida integralmente. Beijo grande. Bia

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